segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O MENINO E AS BONECAS

Carlinhos olhava para os cílios da boneca com um encanto hipnótico. Parecia que aqueles grandes olhos azuis queriam sugar sua alma. “Tão lindos aqueles olhos”, pensou um momento antes de imaginar que os da sua mãe também deveriam ser assim. Tocou os seus próprios cílios para constatar que não eram iguais aos da boneca e, ainda alheio ao mundo ao redor, passou a penteá-los como que tentando deixá-los ondulados como os que admirava.


- Carlinhos, você está aqui, menino? - a voz da tia ressoou já no abrir da porta, sem lhe dar tempo de largar a boneca.

Flagrado em seu ato de contemplação, Carlinhos continuava penteando pateticamente os cílios, sob o olhar estupefato da tia.


- O que você está fazendo com essa boneca, menino? - a pergunta veio como uma rajada da qual não conseguiu escapar. Nada lhe veio à cabeça. Largou os próprios cílios, mas não conseguiu fazer o mesmo com a boneca.


A tia Helena se aproximou vorazmente de Carlinhos e num safanão tomou-lhe o brinquedo das mão, retornando-o à penteadeira para a companhia de um punhado de outras bonecas e ursinhos de pelúcia que dividiam espaço com perfumes, cremes e escovas de cabelo. Feito isso apertou o braço do sobrinho e vociferou:

  • Vá agora mesmo tomar um banho para jantar!


Carlinhos apenas levantou-se ainda mudo e fez menção de sair do quarto, sob o olhar severo da tia. Mas não o fez sem antes fitar uma última vez a boneca, seus profundos olhos azuis e seus cílios ondulados. “Os de minha mãe deviam ser assim! Os meus nunca serão”, foi o que pensou ao deixar, cabisbaixo, o quarto da tia.


Helena acompanhou a saída do sobrinho. Um vendaval de pensamentos perturbadores varria sua cabeça naquele momento. “Esse menino não pode puxar ao pai, meu deus. Por favor, não permita”. A lembrança do irmão já morto era aterradora para ela.

Sandoval casara com Lourdes a despeito de toda a desconfiança das duas famílias sobre seus modos afetados e seus traços suaves de “menina-moça”. Mesmo Lourdes não ligava muito para isso e mantinha com o rapaz um relacionamento afetivo, porém distante. Ninguém os chamaria de namorados se os visse caminhando pelas ruas, no máximo de amigos. Por outro lado, para Lourdes o casamento trazia suas vantagens, sendo a principal delas, o fato de livrar-se dos arreios do pai.

Carlinhos nascera apenas no segundo ano de casados. A distância entre os pais permanecia mesmo depois disso, o que alimentava línguas ferinas a insinuarem sobre a dúvida da paternidade do rebento, a despeito da criança guardar enorme semelhança com os traços do dito pai.

Três meses após o nascimento do primogênito, Sandoval se viu em meio a uma onda de boatos sobre seu relacionamento com um tal de Antônio Carlos, um ajudante de escritório que trabalhava como seu subalterno. Os dois eram vistos sempre juntos, ou como soava a sanha da vizinhança: “Estavam mais juntos do que Sandoval e Lourdes”. Daquele dia em diante, não se sabe porque, Lourdes, que sempre fora indiferente ao comportamento do marido e do que dele se dizia, passou a brigar discutir constantemente com o marido a respeito de seu parceiro de trabalho. Insuflada pelos comentários ao seu redor, a esposa vigiava o marido noite e dia, revistando seus bolsos, controlando seus horários. Até mesmo uma cena pública no escritório de Sandoval foi protagonizada por ela, ao encontrar o marido e Antônio Carlos sozinhos na sala a trocarem sussurros.

De alma discreta, Sandoval buscou resguardar-se depois desse incidente. A idéia de ter todo o escritório comentando a seu respeito o aterrorizava mais que qualquer outra coisa. Se afastou de Antônio Carlos. Mas, murchava a olhos vistos dia após dia. A despeito da surpreendente atenção que passou a receber da esposa, tornando-os, pateticamente, um “casal normal”, o homem só definhava. Passado um mês do tal escândalo no trabalho, desistiu de ir ao escritório e transformou-se num eremita em sua própria casa. Somente, em algumas ocasiões raras, era visto contemplando o pequeno Carlinhos no berço, com um sorriso de palerma estampado nos lábios. A vida se arrastou assim durante mais um mês, quando as contas já eram custeadas pela família da moça. “Sandoval está muito doente!” Era apenas o que Lourdes repetia como um mantra a todos que buscavam mais material para fofocas do bairro. Mas foi num domingo quando a esposa se retirara para ir à missa, orar pela sua “recuperação”, que a desgraça se deu. Voltando da paróquia, Lourdes abriu o portão já escutando o choro do filho. Um choro convulsivo. Imaginou que Sandoval devia estar dormindo e o menino com as fraldas sujas. Uma raiva momentânea lhe varreu a alma. Não sabia ainda o que estava fazendo naquela casa. Com aquele homem maltrapilho. Logo em seguida, recriminou-se por estes pensamentos. Entretanto, ao entrar em casa, um grito horripilante lhe vazou a garganta. Os transeuntes da rua em frente à residência, pararam para esperar o desfecho daquele terrível agouro. Sandoval, trajando um lindo vestido vermelho que pertencia à esposa, pendia de uma corda amarrada no telhado e atada ao seu pescoço. Poucos centímetros além de suas pernas, estava o berço do filho, esganiçando, talvez pela fralda ou pela cena macabra que se desenhava em seus olhos “quase virgens”.

Depois do suicídio do marido, Lourdes como que louca, abandonou a casa e deixou para trás o próprio filho, como um espólio de algo maldito que ela, porventura imaginava, ter sido causadora. Desde então, Carlinhos passara a guarda da tia solteira, Helena.

Eram essas horríveis lembranças que solapavam a mente de Helena ao encontrar Carlinhos em seu quarto, tão absorto com suas bonecas. Temeu que a herança deixada por Sandoval para o filho fosse a repetição de seu malfadado destino.

Porém, à medida que o tempo transcorreu seus temores foram se dissipando. Carlinhos crescia em meio aos outros meninos, sem aparentemente guardar nenhum traço que o ligasse ao seu pai, além do belo rosto e do sorriso cativante, que ainda estavam guardados na memória de Helena.

A tia se orgulhava do sobrinho. Crescia forte e aos quinze anos já tinha um corpo de físico muito avantajado comparado aos de sua idade. Na escola, era um dos melhores alunos e entre as pequenas já despertava suspiros de desejo. Os temores de Helena, transformavam-se em uma admiração crescente pelo menino. Cada vez era mais carinhosa com ele e o protegia como a um tesouro. Era como se toda sua vida, até então desprovida de um sentido, ganhasse nos músculos daquele menino um propósito. Carlinhos era seu bem mais precioso. À medida que via o menino se aproximando de menininhas de sua idade, passou a ter ciúmes, assim como também de senhoras mais assanhadas que nele viam um imberbe eros.

Assim, Helena que antes se martirizava em dúvidas sobre a virilidade do sobrinho, passou a vigiá-lo, temendo o que outrora pedia em suas orações. Começou controlando as amizades de Carlinhos, sem deixá-lo sair com alguns amigos que considerava como “más influências” para sua alma ainda nem juvenil. Depois, passou aos horários e os lugares que o menino ia em suas poucas liberdades de casa-escola.

Como conseqüência da rigidez da tia, Carlinhos iniciou uma interiorização que trouxe uma sombra de medo sobre Helena. Então, era ela que o levava aos lugares. Iam ao cinema, a sorveteria, caminhavam na praça. Para Helena, Carlinhos estava sempre triste, sempre precisando de sua companhia.

Era uma noite tempestuosa. Ilhados em casa, sem cinema, sorveteria ou qualquer outro divertimento. Eles apenas jantaram sozinhos à mesa da cozinha. Arrumaram os pratos, como sempre faziam. Um silêncio constrangedor emudecia a casa, como em respeito aos trovões de lá fora. Depois disso, sentaram à sala e ligaram a televisão, sem nada dizerem um ao outro. Helena, lia um jornal quase passado, enquanto Carlinhos assistia um telejornal, sem lhe dar atenção. Ficaram assim por meia-hora até subirem ao quarto.

Helena, ouvindo os trovões e o eco do silêncio que ainda se perpetuava na casa se perdeu em meio aos pensamentos de apreensão sempre dirigidos à figura de seu protegido. Tentou dormir e não conseguiu. Tentou ler um livro para fazê-lo e não funcionava. Até que a energia do bairro se rendeu à tempestade e escureceu tudo. Um surto tomou conta de seu espírito. Temeu pela segurança de Carlinhos, sozinho em seu quarto escuro. Talvez triste, revirando na cama. Levantou-se com uma vela à mão e foi até Carlinhos.

  • Carlinhos, a luz caiu. Acho que com essa tempestade não volta mais hoje à noite. Vem para meu quarto, não quero você sozinho com a casa toda escura.

  • Mas tia, não tem problema! Eu não tenho medo do escuro.

  • Não discute comigo, menino! - a voz dela alcançava um tom de irritação que surpreendeu.


Carlinhos levantou-se ainda coberto com o lençol. Não carregava nenhuma camisa e apenas uma cuequinha de dormir. Foi à frente de Helena, enquanto a tia iluminava o caminho com a vela. Os ombros desnudos de Carlinhos chamaram a atenção da tia. Achou o sobrinho ainda mais belo na penumbra. O escuro ajudava a contornar os músculos florescentes do menino. Uma alegria inesperada a invadia. Quase uma euforia desconhecida.

Entraram no quarto. Helena deitou-se no lado esquerdo da cama e deixou espaço para o menino. Carlinhos, ainda com uma expressão contrariada deitou-se e se cobriu com o lençol, virando o rosto para o lado contrário ao da tia. O silêncio só era desrespeitado pela chuva e pelos trovões. Helena se aproximou do menino que, encurralado, não tinha como fugir. No início ela passou as mãos pelos cabelos dele como que invocando seu sono. Passou a acariciar também a testa e, depois, desceu o lençol para afagar o peito desnudo. Contornava, com a ponta dos dedos, o tórax e delineava as curvas recentes do diafragma.

Carlinhos se impacientava, Helena persistia em sua investida, sem nem mesmo se dar conta do significado de seu ato. O menino, quase violado, tremia em seu íntimo e em seu exterior. Foi quando um relâmpago irrompeu pelo quarto, iluminando a penteadeira da tia, seus cremes, escovas e...bonecas.

Helena aproximou seu rosto do da criança. Seus lábios se abriam na iminência de um beijo. Carlinhos reclinou seu rosto para fora da cama, como a querer fugir. Helena seguiu seu movimento, mas antes que perpetuasse o incesto, Carlinhos se desvencilhou dos braços da tia e correu para a penteadeira. Pegou a boneca de olhos azuis e grandes cílios e com ela sentou-se no chão, iniciando o mesmo ritual de alisar os cílios da boneca e os seus próprios.

Aprisionada por seu desejo podado e pela surpresa na atitude do sobrinho, Helena apenas gritava pelo nome do menino: - Carlinhos! - e na indiferença dele, a mulher padeceu de uma tristeza aterradora que se transformou em lágrimas, copiosas lágrimas. Mas, à parte de todo esse espetáculo, Carlinhos apenas acariciava os cílios da boneca na penumbra do quarto e imaginava que estes cílios deveriam ser iguais aos de sua mãe. Mãe que nunca conhecera, mas que guardava no fundo da memória uma imagem que sempre recorria nos momentos de saudade. Sua mãe sobre sua cabeça, grandes cílios a flutuar como um anjo em um vestido vermelho. Sorriu para a boneca quando pôde ver os grandes olhos azuis iluminados pelo relâmpago que clareou o quarto.

CAMA DE TRÊS

Ainda resfolegando, depois do amor, ele a olhou nos olhos. Em seu rosto se desenhou um sorriso parvo, quase cômico que ela retribuiu com uma expressão terna.



    • Você sabe o quanto você é linda?

    • São seus olhos – ela respondeu, desviando o olhar para as próprias unhas.

Há dois anos se conheciam e a cada vez que faziam amor, era como se ela o brindasse com um presente. Com o tempo, aquela sensação encrustrou-se de tal forma em seu âmago que para ele era imprescindível notar o prazer que ela sentia. Era uma maneira de sentir-se em menor débito com ela. Entretanto, quando achava que não conseguia lhe proporcionar este prazer, se tomava de tristeza. Naquele dia, porém, estava feliz.

Tornou a olhá-la e ela limpava as unhas com um esmero de ourives, de mestre de instrumentos. Até parecia que criava um Stradivarius e não que limpava as unhas. Permaneceram assim por dois minutos, ele a contemplando e ela às unhas. Até que o silêncio se rompeu quando ela lhe disse:



    • Convidei a Fernanda para jantar conosco na quarta-feira. Ela parece muito só desde que terminou com o Melquíades.

Ouviu suas palavras ainda com o mel da alegria nos ouvidos e assentiu com a cabeça sem pensar muito no significado daquele gesto. Continuava a sorrir tolamente, imerso em sua felicidade de bêbado.

Fernanda era uma amiga de trabalho. Na verdade, tornara-se amiga através de Melquíades, parceiro de noitadas que lhe apresentou a namorada. Estavam juntos havia cinco anos e quando as famílias já falavam em casamento, Melquíades pôs um ponto final e foi para Góias com a filha de um fazendeiro. Fernanda, que trabalhava no mesmo escritório dos dois, foi ao inferno. De pessoa extrovertida que era, tornou-se um “corvo”. Ele, preocupado, passou a levá-la sempre aos programas que fazia com Carla. E os três tornaram-se inseparáveis.

Á medida que via a amiga corar-se de vida outra vez, Calazans se encheu de orgulho. Mas Fernanda criara uma dependência pela presença do casal. Estavam juntos tanto tempo que ele se pegava envergonhado ao despir-se no quarto, antes de dormir.

Ainda ouvia dos amigos o chiste cada vez mais comum.



  • Calazans não passa fome! Come sempre dois pratos.

Ficava preocupado que Carla soubesse desses burburinhos e lhe fizesse mal juízo. De fato, era o que se poderia chamar de “um avião”. Tinha um corpo de Helena. Espetacular desde os cabelos até as coxas. Entretanto, nenhum desejo se comparava àquele que tinha pela esposa. Carla era muito mais modesta nos dotes físicos, mas tinha um encanto que o perturbara desde o primeiro instante e seria necessário uma hecatombe para fazê-lo trocá-la por outra qualquer.

    • Calazans...

    • O que, meu amor ?

    • Você acha a Fernanda muito bonita ?

Aquela pergunta gelou seu coração. Será que a esposa soubera a respeito das brincadeiras que os colegas lhe faziam?



    • Por que esta pergunta, coração?

    • Responde. Você acha a Fernanda bonita?

    • Sim, ela é bonita. Mas você é muito mais – disse isso e temeu estar sendo piegas.

    • Você está mentindo, Calazans. A Fernanda é muito mais bonita do que eu. Ela tem um corpo fantástico e eu só tenho essas coxinhas de frango.

    • Ah, não diz isso! Eu adoro essas coxinhas. - E passou a beijar as pernas dela como se isso pudesse torná-las monumentais.

    • Pára com isso! - Empurrou as pernas, repelindo o gesto subalterno do marido. - Sei onde é meu lugar.

Calazans calou-se. Era melhor não dizer nada a arriscar uma discussão.



    • Calazans... - Ela novamente.

    • Sim, minha querida.

    • Você já desejou a Fernanda?

Aquilo atingiu-lhe como uma rajada de balas. Talvez porque fosse uma pergunta que ele mesmo não se ousava fazer.



    • Claro que não! - O ar irrompeu de seus pulmões, dando à frase uma firmeza de convicção absoluta. Aproveitou a deixa e emendou: - Além disso ela é minha amiga e era namorada de meu melhor amigo.

    • Então quer dizer que se não fosse o Melquíades, você a desejaria?

Calazans emburrou-se, encheu as bochechas de ar como uma criança contrariada e virou de lado na cama, não sem antes fazer uma careta para deixar explícita sua indignação. Mas antes que pudesse saborear o gosto do gesto, foi pego de surpresa pela última frase de Carla.



    • Não me importo se você a desejar. Ela é como uma irmã para mim. Minha irmãzinha!

    • Carla, vai dormir, vai. Essa conversa está me deixando neurastênico...

    • Eu não me importaria...

Foram dormir. A semana transcorreu com aquilo. A mulher insistia naquela conversa à noite, quando voltava do trabalho e pela manhã, durante o café. Ele já se cansava e se surpreendeu quando, no jantar da quarta-feira, na companhia de Fernanda, se pegou olhando para as formas curvilíneas da amiga. Ainda pior que, num certo instante, teve quase certeza de que a esposa o flagrara.

Naquela noite teve um sonho tórrido com Fernanda. Ele acordava no meio da noite e quem estava dormindo ao seu lado era ela e não Carla. Usava um baby doll preto minúsculo, destacando suas belas coxas, com os cabelos encaracolados caindo até a base das nádegas. Uma visão celestial! Ou melhor, infernal!

Acordou suando e teve medo, por um momento, que ela realmente estivesse lá. Ao mesmo tempo, uma decepção não confessa por ver as “coxinhas de frango” de Carla. Levantou-se e foi ao banheiro. Só aí notou o efeito físico de seu sonho. Lavou o rosto e encarou o espelho, tendo que admitir, pela primeira vez, desde que casara com Carla, que desejava outra mulher. E o pior: com a anuência da esposa. Estava decidido, no dia seguinte, teria uma conversa com Carla.

No café da manhã, antes que Carla fizesse qualquer menção ao assunto, ele se adiantou:



    • Carla, preciso falar com você.

    • O que foi, Calazans?

    • Meu amor. Tenho que admitir. Desde que você começou com aquela conversa maluca sobre a Fernanda...

    • O que é que tem?

    • Eu comecei a prestar atenção nela. E...

    • O quê?

    • Bem, acho que você tem razão. Eu a desejo. Não sei como estou te dizendo isso, mas é verdade...

    • Eu sabia! Eu sabia! - ela corria pela cozinha, como se estivesse feliz pela conclusão ou vaticínio.

    • Mas eu te amo, Carla! Me perdoa! Eu juro que nunca toquei nela.

Percebendo a aflição do marido, ela o tomou nos braços.

    • Eu sei, meu amor. Eu sei. Sei que amor e desejo são coisas bem diferentes. Não te censuro ou sinto ciúmes.

    • Verdade?

    • Verdade...Só te peço uma coisa.

    • O quê?

    • Eu quero estar presente.

    • Como assim?

    • Quando vocês...Você sabe!

    • Como assim? Eu não pretendo fazer nada com a Fernanda, pelo amor de deus!

    • Mas ela também quer!

    • O quê?!

    • Sim, ela me disse que também quer. Só te peço isso: eu quero estar presente.

Vencido pela surpresa e pelo desejo, ele aquiesceu com um inaudível: “tudo bem”. Carla parecia eufórica, abraçou e lhe disse ao pé do ouvido.

    • Vou convidá-la para vir hoje à noite. Mal posso esperar!

Foi para o trabalho completamente atordoado. Não conseguia se concentrar. Um amigo passou por ele e gracejou: “Esse é o homem que não passa fome!”. Aquilo feriu-lhe de uma maneira diferente. Pela primeira vez parecia que era verdade. Não sabia se era algo bom ou ruim.

Minutos depois o telefone tocou e era Carla.

    • Calazans! Está tudo certo para hoje à noite. Não se atrasa, hein!

Ela estava nitidamente eufórica. “Mas que bolas! Como uma mulher vai ser traída e fica assim?” Aquilo lhe incomodava, mas com o passar do tempo tomou-se de expectativa para a chegada da hora. Não conseguia parar de pensar em Fernanda com o baby doll do sonho. Aquelas formas generosas! “Meu deus! Essa hora que não passa!”.

Terminado o expediente correu para um supermercado e comprou uma garrafa de vinho e velas aromáticas. Tomou o caminho de casa o quanto antes.

Abriu a porta, o coração em sobressalto, e lá estavam as duas no sofá da sala. Seus olhos esqueceram Carla e só conseguiam se concentrar em Fernanda. Ela usava um vestido preto, liso, que escorria despudoradamente por seu corpo, realçando suas formas e as maravilhosas pernas.

Jantaram sem que ele parasse de olhar para o corpo de Fernanda, mas sem conseguir encará-la. Ignorou completamente Carla.

Acabado o jantar, conversaram na sala, sem que nenhuma referência ao objetivo final daquele encontro fosse feito. Passaram algumas horas assim, conversando, rindo e ouvindo música. Por volta das 23 horas, Carla olhou para Calazans como que o intimando. Ele não disse palavra, apenas dirigiu-se ao quarto e esperou por elas, que entraram logo em seguida. Calazans engoliu em seco, enquanto Carla arrastava Fernanda para a cama. Estava surpreso com a desinibição da esposa que beijou Fernanda carinhosamente na boca e baixou a alça do vestido. Esta, por sua vez, parecia completamente à vontade. Seus seios apareceram, lindos, e Calazans ficou eufórico. Correu para a cama e tentou ficar entre as duas, mas foi intempestivamente repelido por Fernanda.



    • Saia daqui!

Aquilo o surpreendeu, mas tentou de novo. Desta vez, entretanto, foi Carla que interviu. Parou de beijar Fernanda e olhou duramente para o marido. Como uma mãe que recrimina o filho, disse:



    • Você ouviu, Calazans! Sai do quarto! Não queremos você aqui.

    • Mas...

    • Mas nada! Sai daqui!

Ele olhou para Carla, olhou para Fernanda, os seios expostos, a curva das ancas se insinuando pelo vestido que lhe caia do corpo. Desesperado, entre a surpresa e o desejo, derramou-se em lágrimas, enquanto as duas continuavam o beijo e o ritual do despir-se mútuo. Calazans foi recuando em direção à porta, sempre olhando-as. Em meio ao turbilhão de pensamento, um lhe sobreveio à cabeça. Uma sensação sorrateira lhe tomou. Era um prazer repentino, pois percebia que Carla estava se entregando aquilo.

Deixou o quarto com um parvo sorriso nos lábios.



Sobre tudo e coisas afins

Abro as postagens que aparecerão aqui já esclarecendo que todas as outras vindouras não têm compromisso com periodicidade ou coerência nos assuntos tratados. Aqui se encontrarão uma série de retalhos de pensamentos sobre tudo que me parecer interessante, sem que este tudo tenha necessariamente uma raiz comum. Como a aflição de uma alma inquieta, os pensamentos fluirão. Algumas vezes consistentemente, formando um quadro com aspecto definido, em outras apenas parecendo pinceladas ao esmo. No todo o que se formará é uma imagem do todo que, eu espero retrate um pouco de minhas preocupações como pessoa e de tudo que aprendi e continuo a aprender.

Iniciarei postando alguns de meus contos. Como disse, a precisão nunca será minha preocupação, de modo que a cronologia da escrita não necessariamente acompanhará a da postagem. Que se iniciem os trabalhos...