quinta-feira, 19 de março de 2009

A SEDE

Correu os olhos por todos os cantos que sua visão alcançava e nada enxergou. Sua garganta rasgava-se mais que sua pele surrada pela areia que o vento açoitava contra seu corpo. Ficou prostrado, esperando por algo que não sabia o que era, enquanto sua mente tentava fugir da agonia de seu corpo. Era como uma espécie de breve pausa para respirar em meio à agônia. Era a ilusão de pensar que podia controlar a situaçao de alguma maneira, que era possível encontrar uma escapatória qualquer. Ainda sua alma resguardava o medo da morte, um claro sinal de que seu ser lutava pela sobrevivência, mas no abismo da razão ele sabia que apenas um milagre podia evitar que morresse. Sim, um milagre. Pela primeira vez em dezenas de anos aquela palavra cheirava-lhe de novo à esperança. Pela primeira vez em tão longo tempo, ela não era a deixa para uma troça ao assunto de religião e das vãs expectativas humanas sobre a interferência de um ser que a tudo assiste do alto de sua majestade e que pode nos dar e tirar com sabedoria. Um ser que lhe foi sempre asqueroso, pois se ele existia, o que há muito já deixara de considerar como uma hipótese, teria de ser intrinsecamente sádico, um monstro em sua própria definição. Não! Não era Deus que lhe preocupava, era a natureza, era a debilidade de seu corpo e a fragilidade de sua existência, pois não lhe seria outra coisa a lhe matar. Mas e o que lhe salvaria? Apenas uma intervenção externa a toda a realidade, apenas um elemento que não lhe era presente neste momento em que o deserto lhe roubava as energias, secava seu corpo e que nenhuma água estava a disposição. Apenas um milagre evitaria que a desidratação o matasse aos poucos, depois que já lhe tivesse solapado a consciência, o fazendo ver coisas, sentir coisas, devolvendo-lhe, talvez, uma ninharia de auto-percepção para que contemplasse a própria morte. Sim, pois essa eram as únicas forças em interação naquele lugar: a natureza e seu corpo. Apenas isso definiria seu destino. Milagres não existiriam.




Um grão de areia entrou pela boca e sentiu um incômodo que o despertou da breve fuga do sofrimento. A mente apagou-se de novo e o resto do corpo lhe imprimiu passos para que de alguma maneira buscasse o milagre que sabia não existir. Seguiu caminhando no mesmo sentido levado pela razão de imaginar que uma linha reta poderia, senão levar-lhe a um "porto seguro" ao menos evitar que andasse em círculos.

Meia-hora mais tarde suas pernas tornaram-se tão pesadas que o pouco de razão que ainda sobrara, pois a havia economizado mais do que a água que há muito já acabara, lhe sussurou que o fim estava próximo, que a queda definitiva se avizinhava e que depois todo o resto do trabalho seria cumprido pelo sol, mas que seu corpo ainda sofreria antes de murchar derradeiramente e que, como consolo, só lhe restava saber que sua consciência não estaria presente para testemunhar esse sacrifício. Fixou as pernas no solo, levantou a cabeça num ato de orgulho, como que para mostrar a seu oponente que a dignidade não lhe seria tirada. Foi então que duvidou disso, quando viu a sua frente uma figura humana ganhando formas em meio ao bruxulear do ar aquecido. Em meio a ilusão ótica causada pelo calor e a areia. Tinha de ser uma miragem, pois milagres não existem! Porém essa forma, de princípio difusa, tornou-se cada segundo mais nítida. O que via com seus olhos era uma mulher, o que sentia em sua cabeça era uma dúvida. Precisava descobrir se era a morte ou a vida que lhe caminhava ao encontro.

Vestia uma túnica branca, seu rosto estava encoberto por um véu e trazia em suas mãos uma cânfora. Seus joelhos fraquejaram, estava ele entregue à esperança do improvável e caiu na areia, a garganta se fechou e os olhos quiseram inutilmente derramar lágrimas de seu corpo seco. No entanto, indiferente a seu sofrimento, ela continuou imperturbável em seu passo seguro. Até que ele divisou seus olhos, um olhar tão penetrante, cercado de tanto carinho e ternura que ele pensou estar errado toda a vida. De que os deuses existiam e de que ali a sua frente uma prova irrefutável estava para lhe salvar a vida. Derramaria-se a seus pés e rezaria em seu altar. Frente a frente com ele, ela descaiu o véu, deixando-lhe ver o rosto. E para ele foi como se visse uma mulher pela primeira vez em toda a vida. Ela era linda, a mais completa síntese da beleza. Ajoelhado perante aquela visão, ele apenas foi submisso. Ela passou a mão macia pelo seu rosto, acariciou seus cabelos, carregando uma expressão terna e inabalável. Mesmo sua mãe nunca o olhara daquela forma. Recolheu a mão e retirou da túnica uma taça de madeira, rústica, mas bela. Derramou a água da cânfora na taça de forma tão lenta e poética que o sol podia se refletir pelo filete do líquido que vertia-se de seu receptáculo. Antes de lhe passar o copo, ela deixou um pouco de água derramar-se pela própria mão e voltou a acariciar a face. O frescor do líquido e a maciez daquela mão o venceram de vez e ele chorou. Se estava morto ou em delírio não importava. Nada podia lhe roubar a melhor sensação que já provara na vida, nenhuma razão podia ser mais compensatora do que aquele sublime prazer. Finalmente ela lhe deu o copo. Ele o recebeu entre as mão, mas ao invés do desespero de sorver aquilo que lhe traria de volta à vida, não quis desrespeitar aquela presença divina. Como se tivesse uma sede controlada bebeu lentamente, sentindo o sabor de cada gota. E um doce sabor restuituiu-lhe a garganta, um doce sabor o fez sentir o vento seco como uma brisa e a beleza em sua frente tornava-se maior. Ele já podia olhar-lhe nos olhos e perceber que não era uma ilusão, mesmo que seu espírito guardasse um receio de que ela se evaporasse tão repentinamente como aparecera e que ele descobrisse que enfim milagres não existem de fato.

Inesperadamente ela se ajoelhou à sua frente e ele não soube o que fazer. Queria poder por-se ainda mais abaixo do que ela, pois não imaginava poder estar ao mesmo nível de tão espetacular criatura. Seus olhos encontraram os dela, um vazio invadiu sua alma. Sentiu-se cair num imenso abismo. De repente, captava cada milímetro daquela face em sua frente. Seus lábios tinham contornos de uma escultura, suas maçãs de rosto eram desenhadas em fina pele. A beleza. A figura do mais lindo pôr-do-sol, do revoar dos pássaros ao fim da tarde, tudo isso resumido num corpo feminino. A garganta voltou a se fechar e ele controlou as lágrimas. Ela aproximou o rosto dele e beijou-lhe a testa. Uma imensa vontade de beijar-lhe os lábios irrompeu de seu espírito, como se estivesse sendo ejetado de volta do abismo onde caia. Mas não podia. Não podia desrepeitar aquela aparição. Ela segurou-lhe a mão e beijou-lhe a palma, as costas, os dedos. Ele pensou o que deveria dizer. O que poderia definir o que sentia? Qualquer som ou gesto apenas destruiria tamanha magia. Nada que pudesse vir dele poderia se igualar à beleza que ela emanava. Estava apaixonado e entregue a algo que nem sequer podia definir. Apenas sentia.

Ela encheu outra taça e entregou-lhe. Ele bebeu novamente em cerimoniosa ação, mas fixando aqueles lindos olhos que o fitavam. Mas as gotas pareceram mais ásperas dessa vez e sua garganta começou a se fechar. O ar se rareou nos pulmões. Ele caiu, ela levantou-se e continuou o fitando. Estava morrendo, seu corpo envenenado, foi a certeza que lhe trouxe o pensamento. Mas não entendia, não conseguia entender. Ela continuou parada e ele esperou que desaparecesse como a miragem que era, como a miragem que tinha sido tudo, inclusive a água. Que a última dose de realidade lhe mostrasse que sua mente o trapaceara e que nada havia acontecido além da morte natural da desidratação que já se avizinhava. Mas ela não sumiu. Ela continuava lá a olhar-lhe. E ele pensou que era mesmo real. Que ela o envenenara apenas para vê-lo morrer. Súbito uma frase venceu o ar que lhe era raro e fugiu de seus lábios

-Porque? Porque me salvaste a vida para tirá-la depois?

E ela, pondo o véu de volta, sussurou

-Ao menos foste feliz por instantes.

Deu-lhe as costas e andou de volta pelo caminho que viera. Enquanto ele agonizava, enquanto seus pensamentos se tornavam mais torpes, enquanto as dores lhe tomavam todo o espírito e um último pensamento foi lhe dito pelo vento: milagres não existem!

quinta-feira, 5 de março de 2009

The sound of silence




Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone,
'Neath the halo of a street lamp,
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence.

"Fools" said I, "You do not know
Silence like a cancer grows.
Hear my words that I might teach you,
Take my arms that I might reach you."
But my words like silent raindrops fell,
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made.
And the sign flashed out its warning,
In the words that it was forming.
And the sign said, "The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls."
And whisper'd in the sounds of silence.

O medo




Uma corrente presa ao meu espírito me arrasta em afogamento
É meu medo
Sento em algum lugar fora de mim mesmo e assisto a este assustador espetáculo
Como num sonho, sou perseguido por uma presença
Presença que não tem identidade, nem face
Apenas um "sabor"
O "sabor" que faz meu estômago embrulhar e meu coração bater mais rápido
Como uma roupa pesada,
Uma âncora
Ela me arrasta para o fundo e me afogo
Porque não sei nadar
Tampouco tenho forças para contrapor seu peso
Estou sempre sendo arrastado
É uma morte lenta
Não sei quando terminará
Mas enquanto ela dura, permaneço na esperança de viver
Mas como?
Se não nado, se não venço a força desta gravidade?
Seria viver
o testemunho de uma morte gradual?
Como se sentar em frente ao próprio corpo
e assistí-lo perder o sangue
gota a gota?
Gostaria que não fosse
Mas é a única forma de vida que conheço
A única em que me sinto seguro
Bizarramente seguro...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Quando o amor apodrece

E então quando olho para trás parece que nunca foi assim
Dentro de mim mora uma estranha sensação
Um fardo de dor
Uma dor estranha
Como se comigo carregasse um filho morto
Morto não hoje ou ontem
Mas há muito podre dentro de mim
Não sinto febre
Só uma dor no peito
Quando lembro das feições que imaginava que ele teria



Só sinto esse vazio
Um vazio preenchido pela tristeza
Ás vezes, simplesmente o esqueço
Mas ele sempre chacoalha dentro de mim
Me lembrando que lá dentro
Reside este cadáver putrefato

Me encerro
Me escondo
Tento fugir para qualquer lugar
Físico ou de minha mente
Mas ele sempre me alcança
Seja pelo cheiro
Seja pelos olhos
Ou mesmo pelo tato
Lá está ele espreitando
Mas na maioria das vezes
Ele me alcança pela alma
E então sinto uma febre dentro de mim
Meu coração se descompassa
E sei que carrego minha dor incurável

De repente, me prosto
Sinto por ela
Por este cadáver
Uma empatia
Que me apaga a dor
Que me veda o nariz
Pois ele é minha única e fiel companhia
O que eu faria sem ele?
Seria sozinho...