quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Pasárgada - capítulo II : "These eyes"


Ele acordou lentamente. O prazer da brisa no rosto ainda conservava-se em sua mente. Esperava abrir os olhos e encontrá-la novamente a sua frente, com aquele sorriso arrebatador. No entanto, quando sua visão começou a ganhar forma, viu apenas a parede em sua frente. Seu coração acelerou. A saliva voltou a misturar-se à alma, formando aquela ânsia. Lentamente virou o pescoço para o lado, rezando para que novamente tudo se dissipasse na certeza de estar errado. Seus olhos encontraram um lençol, que olhado de baixo para cima, não ganhava forma nenhuma. Estava irretocável, dando fronteira ao dessarumado lado onde dormira. Seu coração começou a ser espremido dentro do peito e um bloqueio se formou em seu pescoço. Levantou-se e pensou que ela poderia estar em outro lugar do apartamento. Rezou para que isso fosse verdade. Procurou nos outros cômodos e sentiu aquela sensação de que a casa estava vazia, como em seu pesadelo. De repente, percebeu que, como em seu pesadelo, teria que se defrontar com algo mais substancial. Caminhou lentamente de volta para o quarto e abriu lentamente a porta do guarda-roupa para não encontrar mais que suas próprias roupas. Seu coração alternava entre o bater descompassado e um aperto incômodo no peito. Sentou na cadeira e se forçou a acordar. Aquilo tinha que ser mais um pesadelo. Como o outro. Logo, abriria os olhos, miraria o lado da cama e ela estaria ali, seu perfume, seus cabelos, sua pele macia a se arrepiar quando ele a tocasse. Seu sorriso, tudo o mais voltaria ao lugar e ele sentiria a brisa bater de novo em seu rosto. Ficou de cabeça baixa assim por dez minutos e abriu de novo os olhos. Mas o cenário era o mesmo, o vazio era igual.


These Eyes (The Guess Who,1968)

These eyes cry every night for you
these arms long to hold you again
The hurtin's on me yeah now I know
I'll never be free no no baby
You gave a promise to me yeah
you broke it oh you broke it
These eyes watched you bring
my world to an end
This heart could not accept
then pretend
Oh the hurtin's on me yeah now
I know I know I'll
never be free from you baby
You took the vow with me oh yeah
you spoke it oh you spoke it
These eyes are crying
these eyes have seen a lottla love
But they're never gonna see another
one like I had with you

These eyes are crying...
These eyes are crying...
These eyes cry every night for you
these arms long long to hold you again
These eyes are crying...
These eyes are crying...
These eyes are crying...




THESE EYES, Randy Bachman e Burton Cummings

sábado, 1 de novembro de 2008

Pasárgada - capítulo I : "Abra os olhos"

"Lá tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei...". Foi um sussuro que o despertou. De repente estava sentado na cama, suando e a única coisa que passava-lhe pela cabeça era o medo de olhar para o lado e não encontrá-la deitada na cama. Um "dejá vu" lhe correu pela espinha, misturando-se à sua alma e à sua saliva, lhe volvendo o estômago e trazendo uma ânsia de vômito. Quis correr ao banheiro, mas o medo era maior. Lentamente tornou o pescoço na direção em que ela devia estar e viu, de baixo para cima, um lençol branco, tomando formas de pernas, nádegas e se findo em um ombro desnudo e em lindas costas que encontravam um cabelo marrom encaracolado. De repente, sentiu uma brisa fria vindo fustigar seu suor e sua alma se libertou como se tivesse tirado o sapato que lhe apertava o pé por todo o dia. Uma felicidade imensa diluiu-lhe o enjôo e a vontade de ir ao banheiro cedeu vez ao ato automático de se aproximar num abraço noturno para com ela.

Ela mexeu-se um pouco, colocou uma das mãos sobre a dele que a abraçava, mas não disse palavra, apenas continuou dormindo. Ele não precisava que ela nada disesse. Queria apenas sentí-la ali e ter certeza que o pesadelo fora apenas um pesadelo. Sim, aquela onda de tristeza agora tinha uma explicação. Começava a se lembrar. Aquele mesmo quarto, aquela mesma cama, mas vazia. Não havia nada naquele quarto a não ser ele mesmo. O guarda-roupa apenas com suas coisas. Um ar de mudança e ela não estava lá. Partira, não sabia ele para onde, mas definitivamente era apenas ele naquele quarto. Essa lembrança trouxe-lhe de novo o temor. Se certificou que essa realidade de agora, era a verdadeira realidade. Se certificou de que estava acordado e tocou-lhe seu ombro de novo e beijou sua face. "Eu te amo", disse sussurando. "Eu também...", respondeu ela dormindo. Mas para ele era como se ela tivesse lhe dado o beijo mais apaixonado porque era ela que estava ali e a sensação do terrível se desfazia na certeza de ser apenas um pesadelo. Ele suspirou profundamente e deitou com a cabeça o mais próximo possível a ela. Foi aí que ela virou-se, repentinamente acordada.

-O que foi, meu amor ? O que aconteceu ?
-Nada. Apenas um pesadelo.

Ela o enlaçou e deitou em seu peito. Aquele gesto lhe confortava de tal forma, que nada poderia lhe parecer mais prazeroso naquele momento. A brisa lhe corria mais fresca pelo rosto. E, naquele momento, todo o mundo era perfeito.

-Eu te amo...-disse, sem poder dizer mais nada. Sem uma palavra sequer que pudesse expressar o que sentia. -Tenho tanto medo de te perder...
-Nunca. Nunca...-ela, ainda sonolenta, não precisava mais nada. Recostou-se ao seu peito ainda mais e enlaçou-lhe o ombro. Depois daquilo ele sentiu mais uma vez a brisa, seus músculos relaxaram e o sono veio. O melhor dos sonos.

Acordou com um beijo dela. Abriu os olhos e viu seu sorriso. O sono ainda o entorpecia, mas aquela imagem dela fazia seu coração disparar. Passou as mãos pelos cabelos dela. Um sorriso parvo povoando seus lábios. Palavra alguma na boca. Não era preciso. Ela sabia o que ele tinha a dizer e o brilho nos olhos dela, dizia tudo que ele queria ouvir. Se abraçaram, fizeram amor e o resto do dia se arrastou como uma pequena serenata ao piano, lento e delicioso...Até que..."Abra os olhos...Abra os olhos"

Pasárgada




Vou-me embora pra Pasárgada


Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90