sábado, 1 de novembro de 2008

Pasárgada - capítulo I : "Abra os olhos"

"Lá tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei...". Foi um sussuro que o despertou. De repente estava sentado na cama, suando e a única coisa que passava-lhe pela cabeça era o medo de olhar para o lado e não encontrá-la deitada na cama. Um "dejá vu" lhe correu pela espinha, misturando-se à sua alma e à sua saliva, lhe volvendo o estômago e trazendo uma ânsia de vômito. Quis correr ao banheiro, mas o medo era maior. Lentamente tornou o pescoço na direção em que ela devia estar e viu, de baixo para cima, um lençol branco, tomando formas de pernas, nádegas e se findo em um ombro desnudo e em lindas costas que encontravam um cabelo marrom encaracolado. De repente, sentiu uma brisa fria vindo fustigar seu suor e sua alma se libertou como se tivesse tirado o sapato que lhe apertava o pé por todo o dia. Uma felicidade imensa diluiu-lhe o enjôo e a vontade de ir ao banheiro cedeu vez ao ato automático de se aproximar num abraço noturno para com ela.

Ela mexeu-se um pouco, colocou uma das mãos sobre a dele que a abraçava, mas não disse palavra, apenas continuou dormindo. Ele não precisava que ela nada disesse. Queria apenas sentí-la ali e ter certeza que o pesadelo fora apenas um pesadelo. Sim, aquela onda de tristeza agora tinha uma explicação. Começava a se lembrar. Aquele mesmo quarto, aquela mesma cama, mas vazia. Não havia nada naquele quarto a não ser ele mesmo. O guarda-roupa apenas com suas coisas. Um ar de mudança e ela não estava lá. Partira, não sabia ele para onde, mas definitivamente era apenas ele naquele quarto. Essa lembrança trouxe-lhe de novo o temor. Se certificou que essa realidade de agora, era a verdadeira realidade. Se certificou de que estava acordado e tocou-lhe seu ombro de novo e beijou sua face. "Eu te amo", disse sussurando. "Eu também...", respondeu ela dormindo. Mas para ele era como se ela tivesse lhe dado o beijo mais apaixonado porque era ela que estava ali e a sensação do terrível se desfazia na certeza de ser apenas um pesadelo. Ele suspirou profundamente e deitou com a cabeça o mais próximo possível a ela. Foi aí que ela virou-se, repentinamente acordada.

-O que foi, meu amor ? O que aconteceu ?
-Nada. Apenas um pesadelo.

Ela o enlaçou e deitou em seu peito. Aquele gesto lhe confortava de tal forma, que nada poderia lhe parecer mais prazeroso naquele momento. A brisa lhe corria mais fresca pelo rosto. E, naquele momento, todo o mundo era perfeito.

-Eu te amo...-disse, sem poder dizer mais nada. Sem uma palavra sequer que pudesse expressar o que sentia. -Tenho tanto medo de te perder...
-Nunca. Nunca...-ela, ainda sonolenta, não precisava mais nada. Recostou-se ao seu peito ainda mais e enlaçou-lhe o ombro. Depois daquilo ele sentiu mais uma vez a brisa, seus músculos relaxaram e o sono veio. O melhor dos sonos.

Acordou com um beijo dela. Abriu os olhos e viu seu sorriso. O sono ainda o entorpecia, mas aquela imagem dela fazia seu coração disparar. Passou as mãos pelos cabelos dela. Um sorriso parvo povoando seus lábios. Palavra alguma na boca. Não era preciso. Ela sabia o que ele tinha a dizer e o brilho nos olhos dela, dizia tudo que ele queria ouvir. Se abraçaram, fizeram amor e o resto do dia se arrastou como uma pequena serenata ao piano, lento e delicioso...Até que..."Abra os olhos...Abra os olhos"

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