
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Pasárgada - capítulo II : "These eyes"

These Eyes (The Guess Who,1968)
These eyes cry every night for you
these arms long to hold you again
The hurtin's on me yeah now I know
I'll never be free no no baby
You gave a promise to me yeah
you broke it oh you broke it
These eyes watched you bring
my world to an end
This heart could not accept
then pretend
Oh the hurtin's on me yeah now
I know I know I'll
never be free from you baby
You took the vow with me oh yeah
you spoke it oh you spoke it
These eyes are crying
these eyes have seen a lottla love
But they're never gonna see another
one like I had with you
These eyes are crying...
These eyes are crying...
These eyes cry every night for you
these arms long long to hold you again
These eyes are crying...
These eyes are crying...
These eyes are crying...
THESE EYES, Randy Bachman e Burton Cummings
sábado, 1 de novembro de 2008
Pasárgada - capítulo I : "Abra os olhos"
-O que foi, meu amor ? O que aconteceu ?
Ela o enlaçou e deitou em seu peito. Aquele gesto lhe confortava de tal forma, que nada poderia lhe parecer mais prazeroso naquele momento. A brisa lhe corria mais fresca pelo rosto. E, naquele momento, todo o mundo era perfeito.
-Eu te amo...-disse, sem poder dizer mais nada. Sem uma palavra sequer que pudesse expressar o que sentia. -Tenho tanto medo de te perder...
-Nunca. Nunca...-ela, ainda sonolenta, não precisava mais nada. Recostou-se ao seu peito ainda mais e enlaçou-lhe o ombro. Depois daquilo ele sentiu mais uma vez a brisa, seus músculos relaxaram e o sono veio. O melhor dos sonos.
Acordou com um beijo dela. Abriu os olhos e viu seu sorriso. O sono ainda o entorpecia, mas aquela imagem dela fazia seu coração disparar. Passou as mãos pelos cabelos dela. Um sorriso parvo povoando seus lábios. Palavra alguma na boca. Não era preciso. Ela sabia o que ele tinha a dizer e o brilho nos olhos dela, dizia tudo que ele queria ouvir. Se abraçaram, fizeram amor e o resto do dia se arrastou como uma pequena serenata ao piano, lento e delicioso...Até que..."Abra os olhos...Abra os olhos"
Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Sol entre nuvens
Ao contemplar coisas e fatos que nos remetem a um abismo dentro de nós mesmos.
Não há nenhuma conjunção simples de palavras que consiga ser fiel ao que se sente quando se vê um céu púmbleo sendo dilacerado num pequeno vazio, de uma cortina de nuvens, por um raio de sol.
Não há nenhum texto objetivo que possa reproduzir a tristeza de se ver sozinho, sofrendo por um amor que não se realiza, ou pior, pela sabedoria de que não existe nenhum amor por se realizar.
Então, acolhido nos floreios. sejam eles literários, pela palavra escrita ou em suaves notas musicais ou, ainda em muitas outras formas disfarçadas, que este sofredor consegue fazer eco no coração de outrem.
Outrem que sente o mesmo, mas teria outras palavras para descrevé-lo.
É assim comigo desde criança. Carrego um perfume, uma colheita de sentimentos que afloram nos mais diversos lugares, mesmo quando ali as flores são outras, de outras cores ou mesmo quando não existem flores.
Como poderia dizer diferente? Dizer que tenho uma melancolia eterna, um abismo em minha alma, que suga tudo que está ao meu redor, para apenas me deixar sozinho num oceano em que só enxergo as vagas?
Não, não tenho palavras simples para isso. Pois não o compreendo, apenas sinto. Como o cheiro de uma infância...
domingo, 14 de setembro de 2008
Uma névoa na alma
A chuva teimava em cair mesmo em pedaços. Era como se minha alma chorasse por todo o dia. Era como se minha dor se materializasse em lágrimas que crispavam o dia, que retirava qualquer sinal do céu que pudesse ser confundido com alegria. Caminhei sentindo o frio e não sentindo nada, pois assim está meu espírito já há alguns anos. Vive em uma eterna cãibra que faz com que todos os dias sejam cinzas e frios ou quentes e ensolarados mas, acima de tudo, iguais. Uma eterna cacofonia monocromática...

Parei por um instante para ver a mulher passar com aquele carrinho de bebê. Ela sorriu, não para mim, talvez para o mundo. Eu sorri de volta. Para ela. Queria dizer-lhe como aquela alegria que ela demonstrava ao carregar seu filho me satisfazia. Mas também apertava meu coração. Sim, naquele momento revi meus três filhos natimortos. Natimortos antes mesmo de serem gerados. Natimortos pela perfídia do homem. Meus filhos pertencem aos sonhos, ao doce mundo do ilusório, onde não existe a mentira ou a traição. Mas estas o descobriram antes que a realidade e, por isso, desse mundo tão perfeito eles nunca puderam sair. Ali ficaram presos Daemon, Hristo e Tite, em nomes e lembranças. Lembranças que nunca houveram. Brincadeiras que nunca existiram, apenas a dor de uma idéia que morreu.
Eu sigo pela calçada. As mão dentro dos bolsos, tentando aquecer minha superfície, enquanto meu núcleo está gélido. Está congelado. Nele não se encontra mais sentimentos. Só um sorriso como o daquela mulher, às vezes, me faz notar que me falta algo. Ou talvez também eu note quando percebo que não sei diferenciar os dias. Pois todos são iguais. Como uma deliciosa comida sem sentir sabor. Assim tem sido minha vida ou minha tentativa dela. E sorrisos como o daquela mulher me ferem como uma lâmina aguda sendo empurrada pelas minhas entranhas. É o contraste de saber que existe algo distinto do que sinto. Gostaria de sentir tristeza, gostaria de chorar pelo cadáver que me deixou assim. Porém, não existe cadáver. Existe alguém, uma coisa, um monstro que se aproximou de mim, que me seduziu, que sussurou aos meus mais íntimos segredos, às minhas mais secretas ambições e depois me traiu. Me apunhalou, tornou-se uma crisálida negra, sem que eu tenha percebido. E vôou. E então eu me percebi orfão de meus filhos, de meus sentimentos, eu me senti orfão de mim mesmo...Nem um cadáver tenho para chorar.
Sigo então pela calçada, mão nos bolsos, olhando para o céu cinza e esperando que mais alguém sinta o que eu sinto, para que eu não me ache tão solitário...Sem sentir nada...Apenas vendo o sorriso daquela mulher e de sua bela criança e fantasiando, como quem assiste um filme, ser eu e não ela que guia aquele carrinho...
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Eu, Thomas Klein (Parte I)
Ela passou em frente ao seu banco, olhou para o assento vazio, teceu um sorriso para ele. Nem mesmo sabia ele que expressão carregava em seu rosto. Seu medo só o fazia sentir o coração em palpitações e aquela sensação de uma lança sendo pressionada contra o peito. Ela olhou em frente e sorriu um sorriso mais largo, se deslocando para um banco mais à frente, num rastejo digno de um caramujo. Talvez, atrás de si, tivesse deixado um rastro de visgo. Foi o último pensamento que Thomas Klein teve antes de ouvir pela primeira vez aquela voz estridente que nunca esqueceria.
-Ela é um lixo, não? - Um homenzinho de não mais que 1,50 m estava ali, sentado ao seu lado, justamente onde ele temia que a gorda sentasse e ele nem mesmo viu quando este havia chegado. Tinha um sorriso no rosto que era de assustador pelo
terça-feira, 12 de agosto de 2008
O CORVO
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida, Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura, Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! - "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! - "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo", eu disse. "Parte! E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
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Espectros
Te vejo como um espectro
Assombrando minha existência
Ontem te vi em meio à multidão
Sabia que não poderia ser tu
Entretanto, por um momento quis que fosse
Mas sei que esta imagem
Como meus pensamentos
São não mais que o reflexo da dor
Que ecoa em meu peito e se desprende
Como um soluço
Como o grito que não dei
Para doer em meus olhos
Sonho todos os dias contigo
Aparece para mim como flor
E como espinho
És como uma maldição, um julgo que carrego
Tenho pavor que esta sina se dê até o último de meus dias
Quando descobrirei se estarei livre
Ou para a eternidade condenado...
Sonhos e realidades
Por que me disseste: te ensinarei a amar?
Por que não me disseste: sou de carne e osso?
Porque o que me ensinaste foi que amar é trair
Me ensinaste que o amor é uma incessante dor
Que poda a razão de viver
Por que viver num mundo
Em que os anjos são pérfidos
Em que os sentimentos são como uma faca
Que apunhala o espírito
Que tiram a esperança?
Melhor seria se tivesse me dito:
Sou de carne e osso
Então saberia que tu pertencias ao mundo real
Ao mundo que eu enxergava
E não ao mundo que eu sonhei
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
CRAQUES QUE GOSTARIA DE TER ASSISTIDO II - Fausto (A maravilha negra)
Texto de Antonio FalcãoTanto quanto o paciente do quarto 301, irmã Catarina viu que a luz da vela do oratório era fraca e semi-apagada. Há muito, na função de caridade daquele sanatório escondido nos cafundós do estado de Minas Gerais, a freira convivia com a morte de tuberculosos.
E com a de Fausto dos Santos – a quem ela incutiu a fé cristã através de doutrinação oral e de livro emprestado – não seria diferente. Só que, desde a tarde, o recém-convertido ardia em uma febre de graus elevados e a respiração sôfrega dava os pulmões como corroídos. Em todo caso, a madre rezou por um milagre, e pediu que o negro que o Rio de Janeiro lhe enviara surrupiasse do tempo algumas horas de quebra. Em vão: Fausto morreu assim que a religiosa saiu. À noitinha, quando ela voltou ao 301, a rigidez cadavérica se acentuara, razão pela qual irmã Catarina teve dificuldade em cerrar os olhos sem brilho do defunto. E a lhe cruzar as mãos inertes.
Entretanto, o que a freira ou ninguém do sanatório sabia era que aquele morto quase anônimo fora um dos maiores artistas do futebol mundial. E que com ele nascera um estilo fino e altivo de jogar bola. E de viver – mesmo que apenas os 34 anos que viveu.
Tampouco Rosa, a mãe de Fausto, imaginaria que o menino que pariu em 28 de fevereiro de 1905 fosse tão longe. A rigor, quando ela ouviu o choro do menino invadir a cidade de Codó, no Maranhão, apenas torceu que ele crescesse com saúde – o que, por si, já era pedir muito, por força da miséria do Nordeste brasileiro. Na infância de Fausto dos Santos, a vida era só uma chama iluminando o futuro melhor que a sua família foi tentar no Rio de Janeiro, então a capital e a maior cidade do Brasil.
Quando o futuro veio, em 1926, viu Fausto, alto e magro, na equipe carioca do Bangu Atlético Clube, atuando de meia ofensivo. E percebeu que ele era craque definitivo. Definitivo no toque de bola, na matada no peito, no drible e na ginga, no desarme, na preparação do gol, em tudo que viria a ser o futebolista brasileiro. Isso levou Henry Welfare – inglês radicado no Brasil e técnico do Clube de Regatas Vasco da Gama – a chamá-lo para o time do bairro de São Januário. E Fausto resistiu até 1928, quando trocou o Bangu pelo Vasco, clube da rica colônia portuguesa e da gente graúda da cidade. No estádio vascaíno, inaugurado um ano antes, ele luziria. Lá, aos domingos, sua pele negra se fundiu à camisa preta, onde a cruz de malta branca foi fincada à esquerda do peito. Mas a fama esportiva de Fausto não modificou o moço noctívago que ele era, a viver nos bares e bailes de gafieira do Rio.
Em 1929, como eixo (nome que se dava ao médio volante) vascaíno, ele ganhou o título carioca. E o respeito e a simpatia dos que o viam como o cérebro do meio-de-campo, posição para a qual fora deslocado por Welfare, que ignorava o esquema WM, criado por seu compatriota Herbert Chapman e praticado na Europa. Pela fórmula vascaína, Fausto tinha que ter um fôlego fora do comum – dele dependia o ataque. Nesse ano, além de campeão estadual, o negro de Codó estreou com êxito nas seleções carioca e brasileira.

Ano seguinte, disputaria a Copa do Mundo, no Uruguai. Mesmo cheio de craques, o escrete nacional, com três treinos, era composto de uma turma inexperiente e temerosa em fazer feio no exterior. Na estréia, o Brasil perdeu da Iugoslávia. Depois, derrotou a Bolívia. Só com essas duas partidas, Fausto foi o melhor eixo da Copa e a imprensa uruguaia o batizou de Maravilha Negra.
A partir daí, o ídolo brasileiro passou a ser ajudado financeiramente pelos portugueses ricos do Vasco da Gama. Mas com a glória, e as farras, ele vivia a sofrer impertinentes gripes e a não mais jogar, sendo aconselhado a esquecer a madrugada e o álcool.
À época, disseram-lhe que os negros eram predispostos à tuberculose e Fausto tomou isso como exagero racista, seguindo fiel à boemia.
Concomitante, veio a ser um atleta irritado e freqüentemente expulso de campo. Mesmo assim, era o Maravilha de sempre: fino, elegante, habilidoso, cérebro da equipe. Tanto que, em 1931, folgando da gripe, foi com os cruzmaltinos à Europa. E encantou Madri, Barcelona e Vigo, que o compararam a um escravo levando o time nas costas. Em Lisboa, o Vasco venceu o Benfica, um misto Benfica-Vitória-Casa Pia e o Sporting, atuando ainda em Póvoa de Varzim, Ovar e Porto.Pela exibição em Portugal, o preconceituoso cronista Alberto de Freitas disse no diário lisboeta Os Sports: “O centromédio... fez verdadeiras maravilhas em campo, passeando com um à-vontade extraordinário... Com tanta classe até se pode não ser branco”. Porém, na hora do Vasco voltar ao Brasil, Fausto aceitou a proposta – para ele, milionária – do Barcelona.
E na Catalunha fez jus ao nome e maravilhou a todos, inclusive conquistando o torneio da região em 1932. Pelo Barça, o negro brasileiro foi a Paris e teve do jornal France Football este elogio: “Ele faz com espantosa facilidade o que outros fariam com um esforço sobre-humano. Fausto, com seu futebol maravilhoso, veio ensinar à Europa como deve jogar um center-half”. Tal confissão reconhecia que o futebol-arte brasileiro chegara no Velho Mundo.
Mas a gripe voltou a prostrá-lo e isso indispôs o craque com a direção do Barcelona, que exigia que jogasse com febre. Em 1933, ele se transferiu para o clube suíço Young Fellows. E, cuidando dos pulmões combalidos e respirando ar puro, na Suíça ficou apenas dois meses.
Talvez Fausto tivesse consciência da tuberculose e de sua gravidade, mas calou. Em 1934, por já ser profissional, ele não foi à Copa do Mundo na Itália. E o Vasco o adquiriu para ter o título carioca com um time que ia de Domingos da Guia a Leônidas da Silva. Em 35, pelo brilho, Fausto atraiu a atenção do Nacional uruguaio, que comprou o seu passe para vê-lo expulso de campo e brigar com o mundo. A saúde precária do brasileiro não lhe permitia correr os dois tempos de uma partida. E o craque maranhense de Codó voltou ao Brasil para jogar no Flamengo carioca, em 1936.
A seguir, chegou à Gávea o técnico húngaro Dori Kruschner, fã do sistema WM: 3 beques, 2 médios, 2 meias e 3 atacantes. E com ele um rígido treinamento físico, até então inédito no País. Vendo que Fausto já não tinha gás, esse técnico o escalou na zaga. E o craque pediu rescisão do contrato, que lhe foi negada no clube e na Justiça. Na equipe, substituíram-no por Engels, um atacante alemão adaptado como centromédio. Em 1938, porém, vendo-se sem chance e humilhado, Fausto se retratou em carta exaltando Kruschner.
O Maravilha Negra voltaria a jogar com o aparente talento de sempre. Nessa época ele foi, até, cogitado para o escrete nacional que ia a Copa do Mundo, disputada na França. Porém, a velha gripe, cheia de tosse, veio abatê-lo de novo. Uma tarde, após jogar entre os aspirantes do Flamengo, sentiu-se mal e teve hemoptise. Quando quis retornar aos treinos, em 1939, os médicos o enviaram ao sanatório mineiro sem muita esperança de curá-la da tuberculose. E por lá Fausto dos Santos seria enterrado sem grandes pompas em cova rasa, cravada por uma tosca cruz de madeira, sem nome nem data.
PS: Ao contrário do que aconteceu com a resenha de Sindelar, em que eu pude compor graças ao grande material disponível na rede, a biografia de Fausto da Silva parece quase que esquecida. Isso reflete um pouco da pouca cultura de memória que o Brasil possui. Ainda assim, consegui encontrar essa belíssima resenha de Antonio Falcão que acabei por copiar na íntegra, com o devido crédito naturalmente. Adaptá-la seria um crime por não ter nada de mais verossímel a dizer e por perturbar sua composição harmoniosa.
domingo, 3 de agosto de 2008
CRAQUES QUE GOSTARIA DE TER ASSISTIDO I - Matthias Sindelar (Der Papierene)
Matthias Sindelar (Matěj Šindelář, na grafia original de seu nome tcheco) nasceu em 10 de fevereiro de 1903, em Kozlov, Morávia, que então fazia parte do Império austro-húngaro. Filho de uma família pobre que se mudou dois anos após seu nascimento para Viena , estabelecendo-se no distrito de Favoriten, um subúrbio industrial habitado principalmente pela comunidade tcheca, Sindelar acompanharia as mudanças de seu tempo, estando na vanguarda tanto do esporte que abraçou (o futebol) quanto das posições políticas do efervescente princípio do século. Foi uma dessas efervescências, a I Guerra Mundial, que privou Sindelar da companhia de seu pai, Jan Šindelář, um ferreiro que tombou morto durante os combates da Primeira Grande Guerra. Essa tragédia familiar tornou o então pré-adolescente de 14 anos num chefe de família precoce. Uma família que contava com sua mãe, Marie Švengrová, e mais três irmãs.Para sustentar a família empregara-se como mecânico, mas a habilidade desenvolvida jogando nas ruas de Favoriten com uma bola de trapos, chamou a atenção do Hertha de Viena, onde ingressou no time de menores aos 15 anos. Por lá ficou seis anos, até se juntar ao clube chamado então pelo nome de Wiener Amateur-SV, futuro FK Austria Viena, um clube ligado à classe média judia da capital austríaca. Ao chegar ao Amateur, Sindelar encontrou um time campeão da última liga e também desconfianças sobre seu físico franzino para o enfrentamento de um campeonato mais duro. De fato, na primeira temporada, Motzl, como era chamado pelos companheiros, sofreu uma grave lesão nos meniscos o que o levou a uma intervenção cirúrgica bastante complicada para os padrões de sua época, mas que não o impediu de retornar em poucos meses. Nos anos seguintes Sindelar seria campeão da copa da Áustria em 1925 e 1926 e nesse ano também campeão da liga austríaca, que tornara-se profissional um ano antes. Os anos seguintes não foram muito bons para o Amateur que já se chamava FK Austria em 1926. Terminando o campeonato quase sempre no meio da tabela, o FK só voltaria a vencer regularmente na década seguinte, quando conquistaria mais duas copas nacionais e duas edições da Mitropa Cup, a competição de clubes que originou a Copa dos Campeões da Europa. Sindelar, por sua vez iniciava sua trajetória na seleção austríaca.

Sua estréia ocorreu num jogo contra a Tchecoslováquia, marcando na vitória de 2x1 dos austríacos. Nas duas partidas seguintes, Sindelar voltou a marcar mais três gols, dois na vitória contra a Suiça por 7X1 e mais um contra a Suécia em novo triunfo, desta vez por 3x1. Era então o ano de 1926 e Sindelar tinha apenas 23 anos de idade, mas começava a marcar uma nova era para o futebol europeu. As qualidades mais mencionadas no jogo de Motzl sempre foram seu estilo clássico e elegante, inteligente e simplificador. Rápido, centroavante díficil de marcar, alto e magro, a exatidão e a leveza com que driblava ou executava os passes levaram o torcedor a apelidá-lo de Der Papierene (homem de papel). Com jogadas imprevísiveis e gols de rara beleza, Sindelar tornou-se um dos maiores goleadores da liga austríaca com 161 gols ao longo da carreira, fazendo também 27 gols em 43 partidas pela seleção de seu país e 497 ao todo, registrados na sequência de jogos que pode ser encontrada nesta lista.Mas a importância de Sindelar para o futebol austríaco e europeu está além do que os números podem mostrar. Para historiadores do esporte como os franceses Jean-Philippe Réthacker e Jacques Thibert, Der Papierene foi o mais completo centroavante da história do futebol do velho mundo. Além desses testemunhos elogiosos, recai sobre Sindelar o papel de viga mestre para a formação do Wunderteam (o time maravilhoso), um dos primeiros grandes esquadrões do futebol mundial e que, como outros de seu naipe não marcaram sua existência por um grande título, mar por grandes atuações ao longo dos anos. De fato, a equipe montada por Hugo Meisl que conceitou, juntamente com o inglês Jimmy Hogan, uma nova maneira de distribuir os jogadores em campo e efetuar táticas ofensivas, acumulou anos de glória entre o perído de 31 a 34 com marcas espantosas como as 9 vitórias conquistadas em 12 partidas disputadas no período com mais dois empates ambos contra a Tchecoslováquia e a única derrota por 4x3 para os ingleses em Wembley, quando se obsevou uma marcação severa sobre Der Papierene. Entre os triunfos austríacos estão várias vitórias retumbantes como 5x0 na Escócia e na Alemanha, ambos no campo do adversário e um 8x1 na Suécia. A Itália também perdeu em casa para o time maravilhoso por 2x1. Entretanto, foi a Itália que, numa partida muito polêmica devido a todo o clima bélico que cercou a Copa do Mundo de 1934, realizada na bota, tirou a Áustria de uma final a vencendo pelo placar de 1x0 e com um gol de Sindelar anulado pelo juiz da partida. O mesmo que depois apitaria a final que consagraria os italianos como campeões, mas que também tornaria suspeita a participação de Benito Mussolini nos episódios de bastidores daquela Copa, a qual parecia um palco ideal para desenvolver sua propaganda fascista.

Essa seria a primeira vez que o signo do absolutismo marcaria a vida de Sindelar, mas não a última. Nos anos seguintes um preço mais caro que uma desclassificação num campeonato de futebol lhe seria cobrado. Em 1938, a Áustria era anexada pela Alemanha nazista e os jogadores do Wunderteam eram solicitados para fazerem parte da nova seleção alemã que tencionava triunfar na copa da França. Um jogo amistoso entre as seleções da Áustria e da Alemanha tinha sido marcado para fazer propaganda da máquina nazista e para assinalar o final da seleção de Meisl. Diz-se que os jogadores do Wunderteam tinham sido instruídos a não vencerem a partida. Perdendo gols explícitos no primeiro tempo, Der Papierene marcou o primeiro na vitória por 2x0 contra os estupefatos alemães. Não satisfeito em demonstrar que poderia ganhar quando quisesse, Sindelar ainda comemorou seu gol defronte da tribuna onde se encontravam as autoridades do Reich. Aquilo parece ter marcado o destino do Homem de Papel. Requisitado para participar do time germânico, ele recusou, sempre procurando uma desculpa. Segundo testemunho do técnico alemão Sepp Herberger, que seria campeão do mundo em 54, estava claro para ele que Sindelar se sentia incomodado com a possibilidade de vestir a camisa alemã. De fato, Matthias não gostava da política anti-semita e belicosa dos vizinhos e foi tachado como amigo dos judeus e simpatizante dos comunistas, num relatório da polícia secreta,uma espécie de sentença de morte velada. Deixando o futebol cada vez mais de lado para se afastar do assédio nazista, Sindelar foi encontrado morto em seu quarto em 23 de janeiro de 1939, portanto ainda com 35 anos. Ele e sua namorada, a italiana Camila Castagnola, na versão oficial, foram vitimas de envenenamento acidental por monóxido de carbono, mas as versões sobre um suícidio ou sobre um assasinato encomendado pelas autoridades sempre estiveram em voga para o caso. O fato é que Matthias Sindelar morria deixando um legado concreto e ideológico para a posteridade. Transformara-se em lenda com suas atuações no futebol, moldando um dos melhores times da história do esporte, ganhando vulto como um personagem lendário de uma época romântica. Mas também sendo um homem de seu tempo, se posicionando segundo seus valores e contra os ideais que desprezava, por mais ameaçadores que fossem estes.
Seu lugar na história está assegurado. A maior prova é um dos codinomes que ganhou: "Mozart do futebol". Para um austríaco qual maior reconhecimento poderia haver? Se há, também esta ele teve. Sindelar foi levado em seu cortejo fúnebre por uma multidão de 40.000 compatiotras e admiradores. Foi sepultado no mesmo lugar que também guarda os restos mortais de Mozart, Beethoven e Schubert. Uma justa homenagem para aquele que foi eleito o melhor jogador austríaco do século passado e que, como seus ilustres compatiotras encheu o coração dos que o assistiram com a poesia do sublime...
Aqui você pode ver um pequeno documentário em espanhol sobre Matthias Sindelar:
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
A dor
Ainda me lembro de seu rosto. Ele estava no canto do bar quando passei. Nada parecia especial nele. Lembro de ter me olhado meio de sopetão e depois virado a face como se não quisesse ser reconhecido. É engraçado quando estamos em outro país e encontramos algum compatriota. Num primeiro momento parece que você o reconhece. Deve ser algum sinal silencioso que lhe entrega. Eu não estava trajando nada especial, nem mesmo uma fita ou boné da seleção. Se bem que mesmo que estivesse não signficaria muita coisa. Eram tantos os espanhóis disfarçados de brasileiros pelas ruas de Barcelona que, qualquer um, podia se passar por tupiniquim, a não ser que tivesse aquele sinal invisível de reconhecimento.
Sentei-me e pensei que talvez o sinal fosse alguma manifestação da extrema tristeza que eu sentia agora. Não chorava desde criança, a partir do final do jogo algo estava machucando minha garganta. Era como uma imensa bola que não queria descer, meu corpo todo estava mole e não era culpa de bebida nenhuma, apenas daquela apatia de espírito, daquela tristeza sem solução. Foi quando eu o olhei novamente. Senti vontade de puxar conversa, mas não sabia como começar. Era óbvio o que dizer, falar sobre a derrota para os italianos. Mas até lembrar disso era dolorido e naquela hora que lembrei era como se me sentisse num pesadelo. Era mesmo verdade que havíamos perdido? Não disse nada no final das contas, apenas olhei em sua direção. Mas foi esse olhar que o encorajou a se aproximar de mim. Ainda me lembro de seu sorriso contorcido no rosto. As pupilas saltavam dos olhos que estavam caídos sobre duas “bacias” escuras de olheiras. Provavelmente produzidas por choro. Sim, certamente era um brasileiro. Estava chorando da mesma dor que eu e ao menos podia chorar. Mas era algo ainda maior o que eu via. Parecia que ele estava totalmente transtornado em seu sentimento. Era como se houvesse perdido um parente ou algo assim. Lembrei-me imediatamente da frase que vira pichada num muro perto do Sarriá : “Há pessoas que dizem que o futebol é assunto de vida ou morte. Eu os asseguro, é muito mais sério que isso!”. Estava com essa frase pronta para iniciar nossa conversa, quando meus pensamentos foram interrompidos pelo esgar de sua voz:
-Por que as coisas são assim? Por que a vida nos faz isso?
Não tinha uma resposta. Meneei a cabeça em tom de concordância, mas o certo era que a dor daquele homem era maior que a minha, muito maior.
-Você acha que é líquido e certo. Que para sempre será aquela felicidade. Nós tivemos dias tão felizes...Como pôde ser assim? Como pôde terminar assim?
-Acontece... - uma frase óbvia na ausência de qualquer outra.
-Acontece?Acontece? - é o que todos dizem. - Será que você não tem algo melhor para me dizer?
-O que você quer que eu diga?
-Que me explique porque a vida pode ser tão cruel. Porque ela nos deixa fantasiar tanto, nos permite achar que encontramos algo especial e depois nos tira, como se estivesse brincando conosco.
-Eu não sei amigo. Talvez você aceite dividir um copo de bebida comigo e podemos tentar responder isso.
-Não há tempo...Não há tempo.
-Claro que há. Tudo o que mais temos agora é tempo. “Muchacho!” - assobiei para o garçom. Ele veio e usei um pouco de meu “portunhol”.
-Dos doses de tequila para yo e mi amigo acá! - ele fez que sim com a cabeça e saiu para pegar a bebida. Eu já estava me convencendo que sabia falar espanhol. Um pouco de alegria em meio à nossa decepção.
Voltei-me para meu novo amigo para retomar a conversa e tentar sairmos um pouco daquela ladainha. Pensei como era bom encontrar alguém mais triste do que eu. Isso fazia com que eu censurasse minha própria tristeza e me sentisse forte por um instante.
-Então amigo, vamos tentar esquecer isso amargando tudo neste copo. Um brinde à felicidade que não se completa.
Ele brindou atarantado, como se eu houvesse dito algo que ele não esperava. Como se tivesse lido seus pensamentos.
-A vida é assim mesmo. Um dia estamos no céu. No dia seguinte no inferno. Amanhã quero apenas estar de ressaca. E é bom você também esperar por isso.
-Amanhã? Acho que eu não terei um amanhã.
-Puxa, amigo. Como você é melodramático. Eu achei que eu fosse o maior de todos, mas sou “pinto” perto de você.
-Preciso ir. Não sei para onde. Tenho que me esconder. Mas não consigo deixar de lembrar. Não consigo deixar de lembrar...
-Eu também não deixo de lembrar daquela maldita bola do Cerezo. Mas ainda pior para mim foi aquela bola que o Serginho chutou na frente do Zico. Puxa, mas que cara grosso. Se fosse o Galinho, estaríamos comemorando agora. E vejam só, por causa da grossura daquela “anta” estamos aqui maldizendo a vida. Não é?
-Hã? O quê? Zico? Serginho? Cerezo?
-Puxa, amigo, você está mesmo mal.
-Do que você está falando?
-Não lembra desse lance?
-Lance? Lembro do beijo. Lembro do tiro. Lembro do sangue...
-Beijo? Sangue?! - minha espinha foi completamente visitada por um calafrio que congelou toda a minha alma. Por um instante achei que estivesse delirando. Achei que tivesse certeza de que aquele homem estava falando de um homicídio. E me preparei para o pior.
-Escuta amigo: você estava falando da derrota da seleção para a Itália há pouco não era?
-Não. Sim. Não. Oh, meu deus! - o homem caiu no balcão e desabou a chorar. As pessoas olharam em nossa direção assustadas. Alguns homens vestidos de azul no fundo riam em tom sarcástico. Eles também pensavam que fosse uma dor de futebol. Eu estava transtornado. Não conseguia sequer sentir raiva dos italianos no fundo do bar. Não conseguia sentir raiva nem mesmo de Paolo Rossi. Na verdade preferia estar bebendo com ele ali do que com o que eu imaginava que era a pessoa com quem eu bebia.
-Hã...Amigo, vamos sair daqui. Podemos conversar mais lá fora, está bem?
Nem sei porque fiz isso. Era como se eu quisesse fugir do bar, com medo que as outras pessoas constatassem o mesmo que eu imaginava que tinha constatado. Ou talvez só quisesse me livrar dele, mas ao mesmo tempo sentia uma pena daquele infeliz. Fosse o que fosse saimos do bar e sentamos numa calçada num beco ao lado. Era escuro, a pouca luz que ainda visitava o lugar conseguia iluminar apenas parte dos nossos rostos. Ele ainda chorava. Pensei em começar uma nova conversa, perguntar seu nome, dizer o meu. Mas me veio à cabeça que se minhas preocupações fizessem algum sentido era melhor saber o menos possível dele e que ele soubesse o mínimo de mim. Novamente fui assaltado pela vontade de ir embora, mas quando olhei para aquele "desespero ambulante" que enxugava as lágrimas em atos infantis a poucos metros de mim, me censurei por pensar em fazer isso.
-Sabe amigo, você me deu um susto. Falando aquelas coisas de beijo, tiro e sangue. Cheguei a pensar besteira, mas é claro que você está assim pelo que aconteceu hoje, não foi? Digo, pelo que aconteceu no jogo do Brasil, não é?
-Sua tristeza é toda porque o Brasil perdeu para a Itália? Por causa daquilo que o Paolo Rossi nos fez?
-Paolo Rossi? - seus olhos ganharam uma vida nova. Era como se eu tivesse apertado um botão. Primeiro ele ficou mais atento, seus olhos não pendiam mais nas órbitas, fixavam um ponto. Sua expressão indicava um esforço para recordar algo. - Claro, o Rossi. Aquele desgraçado. Como ele pode fazer isso? Como ele pode me fazer sofrer tanto? Não bastava já ter feito gols? Mas eu o matei, eu o matei!
Relaxei com aquela frase. O homem dizia que tinha matado o Paolo Rossi. Era um delírio completo. Ele devia estar bêbado ou coisa pior, mas certamente meus temores eram infundados.
-Você viu como jogamos bem contra a Itália? - ele agora tagarelava animadamente. - Melhor até do que contra a Argentina. Você viu os deslocamentos do Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico? Puxa, que coisa linda aquilo. Me fazia lembrar a Holanda, em 74. O Zico pega a bola pelo meio e o Sócrates entra pela ponta, a defesa da Itália fica perdida. Gol! Que gol! Que construção! Que maneira de jogar! Acho que o Telê é um gênio.
-É. Acho que o Telê devia ser presidente do Brasil. Assim ele bolava uma tática para acabar com a inflação e a dívida externa.- Disse isso e ri, querendo que meu companheiro de conversa também risse. Há poucos minutos pensava que estava na frente de um assasino e agora ali, parado, falando, estava apenas um bom entendedor de táticas, como 99% do povo brasileiro nesses últimos meses.
-Mas depois veio o maldito Rossi. Rossi, onde ele estava antes? Porque eu não o vi? Porque eu não percebi. Estava tão claro.
-Claro? Você tá falando bobagem, amigo! Não tinha nada caro. O sujeito tava sem fazer um gol a Copa toda, não jogava desde não sei quando. Como é que a gente podia esperar isso?
-Mas não importa. Ele está morto. O sangue, eu vi ... O sangue! Eu o matei. Nunca mais ele fará nada para me magoar! Mas e ela? Por que ela fez isso? Oh, meu deus! Por quê?
-Por favor, amigo. Você não está falando coisa com coisa. Quem é "ela"?
Ele olhou para mim como se estivesse tentando entender minha pergunta. Respirou fundo e novamente se acalmou. Sua voz começou a deslizar calmamente pela garganta.
-Chegamos à Espanha para acompanhar a Copa. Eu, Elisa, minha mulher, Carla e Eduardo, nossos amigos. Estávamos muito felizes. Eu e Elisa havíamos casado há pouco tempo, seis meses, e era nossa primeira viagem internacional. Todos estávamos alegres em estarmos num outro país e em acompanharmos a seleção. Eu sempre gostei muito de futebol e cresci com meu pai falando da seleção de 70. Só tinha 9 anos na época e não lembro de muita coisa. Lembro apenas da alegria das pessoas, mas não lembrava dos jogos. Minha família não tinha tv e acho que cheguei a ver apenas pedaços de um jogo ou outro. E essa seleção jogava tão bem, tão belamente. Meu pai dizia-me que lembrava "As feras do Saldanha". Achei que veria de novo o Brasil ser campeão.
Ele agora falava admiravelmete calmo e com um discurso completamente coerente e articulado. Novamente aquela sensação de incômodo me tomava. Porém desta vez eu estava fisgado. Precisava saber o que tinha acontecido àquele homem. Ele continuou falando.
-Então convenci Elisa a guardarmos parte do dinheiro de nossa lua-de-mel para comprarmos a passagem para a Espanha e vermos alguns jogos da Copa. Ela gostou muito da idéia. E convidamos nossos melhores amigos, Eduardo e Carla. Eles casaram quase ao mesmo tempo que nós, mas os conhecíamos há muito tempo. Eu e Carla éramos amigos desde a época do segundo grau e conheci Eduardo quando eles começaram a namorar. Viemos para Espanha e tínhamos ingressos para dois jogos na primeira fase, nos jogos contra a URSS e contra a Escócia. Era óbvio que não precisávamos ver contra a Nova Zelândia. E todas as entradas para os jogos que viessem a seguir. Tudo era uma alegria completa. Nos hospedamos num hotel, passeamos todos os dias, tínhamos camisas, batulaques e tudo que era necessário para torcermos pela seleção. Eu estava tão feliz e me sentia mais feliz ainda quando via como minha mulher estava contente. Num primeiro momento pensava que Elisa poderia se sentir triste. Ela não gosta muito de futebol, mas estava alegre. Pensava que era porque estávamos imersos naquele clima de carnaval.
Ele deu um grande suspiro. Notei que seus olhos começavam a marejar, mas uma respiração a mais controlou o iminente choro.
-E tudo que eu queria era que ela estivesse feliz comigo. Era como se minha felicidade fosse secundária. Era como se me sentisse eternamente em dívida com ela. Acho que, no fundo era isso mesmo. Eu me sentia em dívida por ela ter me dado alegria para viver. Nunca pensei que uma mulher como ela pudesse se interessar por alguém como eu. Nosso relacionamento era bom, mas eu sempre sentia falta de algo e sempre pensava que o problema estava comigo. Mas aqui na Espanha isso desapareceu. Ela estava feliz, eu também.
No primeiro jogo, ela quase não ia, disse que preferia ficar fazendo compras com Carla, porque ninguém estaria nas ruas. Mas acabou indo e foi uma tarde maravilhosa, mesmo se lembrarmos que o juiz nos ajudou. Mas aqueles gols de Sócrates e Éder, foram maravilhosos, não foram? Quando Éder acertou aquele chutaço que o Dasaiev deve estar procurando até agora, ela me abraçou e minha alegria era multiplicada. Eu nunca saberia usar palavras para fazer alguém entender o que eu senti naquela hora.
Na segunda partida, eu mesmo tomei a iniciativa de incentivá-la a sair com Carla, enquanto eu e Eduardo íamos ao estádio. Voltei tão feliz de lá, mas com uma certa culpa rangendo em mim, porque não pude dividir com ela aquele sentimento tão sublime que carregava em minha cabeça e meu coração. Depois saimos de Servilha e viemos para Barcelona e eu nunca me senti tão completo como naqueles dias. Mas acho que todos nós estávamos muito deslumbrados, não é? Você lembra de um outro time que jogasse tão bonito? Cresci com meu pai me contando estórias que eu semprei pensei que fossem lendas. O Wunderteam da Áustria, o Arancsapat da Hungria de Puskas. Mas o que eu vi aqui me fez acreditar que as lendas são reais. Fiquei arrepiado pensando no dia que contaria essas estórias ao meu filho.
Contra a Argentina comemoramos a noite toda naquele bar, naquela rua, como é mesmo o nome? - Ele parou tentando puxar pela memória. Como eu não sabia nome de nenhuma rua, apenas silenciei - Não importa! Estava tudo muito perto...Tão perto. Oh, meu deus, por quê? - e ele desatou a chorar novamente.
Eu não sabia o que pensar. Teimava em adivinhar o final daquela estória, mas à medida que ele a contava, temia que o desenlace fosse o mesmo que eu já havia pensado desde o bar. Mas eu precisava saber se era isso ou se estava apenas desperdiçando meu tempo com um lunático.
-Você quer para de falar sobre isso? - perguntei na expectativa que ele se negasse a fazer isso.
-Não. Preciso falar, eu acho. Não sei. Não sei mais nada. Estou tão confuso. Nada mais faz sentido. O que sinto é um vendaval em minha cabeça. Como se a verdade tivesse sido-me revelada, cruel como apenas ela sabe ser. Me sinto assim desde o gol do Sócrates hoje. Eu pulei, xinguei, mas tinha algo dentro de mim dizendo que era tempo perdido. Aquela alegria parecia fugaz, me sentia como se estivesse fechando os olhos para algo que estava nítido e eu teimava em fingir que não via. No início apenas pensei que estivesse preocupado porque deixara Elisa no hotel, doente. Ao menos Carla ficara com ela. Carla e Eduardo, porque a esposa insistira para ele ficar. Eu também ficaria, mas Elisa insistiu para que eu fosse, me lembrou todo o dinheiro economizado para aquilo. Eu fui, vi o gol da Itália, depois o empate, mas de alguma maneira aquele gol foi um bofete em meu rosto. Passei a me sentir um iludido. Iludido com toda a minha vida, simbolizada naquele balé da seleção. Comecei a perceber como minha felicidade estava calcada em terreno arenoso. Em como era preciso não mais que um vento para tudo ser revelado. Um vento como Paolo Rossi. Era como se ele fosse a personificação da verdade, me mostrando como sempre a fantasia era derrotada. Em como a fantasia de minha vida era frágil. Quando a Itália fez o terceiro gol, tudo fez sentido. Tudo estava claro. Não adiantava me esconder. Eu sai do Sarriá imensamente triste, perdido e com uma dor tremenda carregada comigo. Não conseguia chorar. Parecia que já tinha vivido aquilo inúmeras vezes. Como se estivesse revisitiando pela enésima vez uma tristeza profunda. Pior ainda era aquela sensação de que não vira tudo, de que a estória ainda não se encerrara.
Fui caminhando pelas ruas da cidade em direção ao hotel, sem consciência. Não estava triste pela derrota que eu nem mesmo ficara para ter certeza de que fora uma derrota. Porque desde que vi a expressão do Rossi na comemoração sabia que havíamos perdido desde sempre. Estava triste por algo maior. Um algo que se revelou quando eu abri a porta do meu quarto no hotel e ela estava lá, nua, beijando...ele. O Rossi! Era o Rossi que estava lá com ela. Me tirando a última coisa que eu tinha. E tudo que ela me disse foi: - Por que você chegou agora?
Eu estava catatônico. Olhei nos olhos dela e depois para ele. Foi então que eu vi um esboço de sorriso em seu rosto. Um esgar que escarnecia minha tristeza. Sai do quarto, fui a cozinha. Fogos de artifício lá fora. Barulho, muito barulho. Eu voltei para o quarto com a faca: - Meu amor, olha...- foi a última coisa que ela disse antes que eu cravasse a faca em seu peito. Eu não sei se chorava. Não eu não chorei. Estava lá e não estava. Ela escorregou entre minhas mãos e caiu no chão ainda viva. Tentou gritar, mas ninguém ouviria nada. - Forza Italia! - Era tudo que se ouviria naquela hora. Corri em direção a ele. Ao maldito. Como ele poderia me tirar todas as alegrias no mesmo dia? Como? Com que direito? Ele tentou gritarm enquanto eu segurava seu pescoço. Não adiantaria - Forza Italia! Fogos de artifício. Não adiantaria. Todos estavam loucos naquela hora, alguns de euforia, outros de tristeza. Eu o peguei e cravei-lhe a faca. - Como você pôde? - Uma, duas, três punhaladas. Tanta, tanta raiva. Ele caiu ali e eu comecei a chorar. Sim, chorava nessa hora. Quando olhei para ela e ainda havia luz em seus olhos, e eles se molhavam e ela gritava um grito inaudito. Eu rastejei até ela. À media que me aproximava, crescia em mim uma vontade de beijá-la. Lembrei do gol do Zico contra a Escócia, aquela bola morrendo lindamente no ângulo do goleiro, do gol do Falcão e então, ali em minha frente não estava mais ela, mas ele, que ainda sorria. Esfaqueei, esfaqueei, até sumir, até sumir tudo. Vermelho, sangue, vermelho, tapete, minhas mãos. Vermelho. Cai na cama, branca, onde eles estavam e chorei. Chorei alto, mas ninguém ouvia. - Forza Italia! Era tudo que se ouvia. Sai do quarto, nem sei se lavei as mãos, nem sei de mais nada. Então estou aqui, então estou aqui. Mas agora o Rossi está morto, a realidade morreu, podemos viver de novo a fantasia! Podemos de novo! - Ele baixou a cabeça e ensaiou uma risada, abafada cortantemente pelo choro convulsivo que se seguiu. Quis ir em sua direção, abraçá-lo talvez, mas sua expressão mudou novamente. Seu rosto vidrou.
-Preciso correr. Preciso ir embora.
Nada pude falar antes que ele se levantasse e saisse correndo pela rua, até que eu não pudesse distinguir sua figura em meio à noite. Apenas ouvi quando um italiano gritou "Forza Italia!" e um aperto tomou meu coração de assalto. Fiquei ali sentado, reouvindo tudo aquilo em minha mente. Tentando entender o que eu mesmo sentia depois daquele encontro inusitado. Tentei mensurar a tristeza daquele homem, em como a minha era apenas parte da dele. Que carregava algo maior. Que no mesmo dia, se vira enganado pela mulher, pelo amigo e pela vida. Sim, e o mais triste era como ele precisou usar a figura do Rossi para poder encobrir tudo. Não falara um instante do amigo, apenas do Rossi. Eu não sabia julgá-lo. E ele seria julgado pelo ato do assasinato, pura e simplesmente. Tudo que sabia era que tinha pena dele. Pena de como ele fugia de si mesmo, de sua culpa, da culpa alheia, de sua dor. A imagem do Paolo Rossi se impregnou em minhas lembranças desse dia e me tornou a noite mais longa. Voltei para meu hotel e tentei dormir, não sem antes rezar para não sonhar com Rossi. No dia seguinte, perdido em meio à centenas de matérias sobre nossa grande dor, uma pequena dor particular que ainda me reservou uma surpresa: uma matéria de poucas linhas dava conta de um homícidio duplo ocorrido num hotel com duas mulheres assasinadas. O assasino ainda não fora encontrado.
Até hoje ainda escuto o choro daquele homem e torço para que eu nunca encontre o Paolo Rossi de minha vida...
Lady X
Aqui, longe de tudo, você não me acompanha
Tornou-se bruma em minha dor
Tornou-se pó em meu temor
Pó e bruma que por vezes se misturam
E me cegam os olhos
Ou me sufocam a respiração
Mas você está tão longe como nunca esteve
Como um sonho que tive noite passada
O qual posso tomar como um espectro
Mas nunca sentí-lo de verdade
Você, que sempre comigo esteve, é agora não mais
Do que uma dolorosa prova
De como não se pode sonhar
Ou melhor, de como não se pode querer que o sonho
Desperte conosco
Porque você agora é um simples sonho que sonhei
E que ao acordar quis trazer comigo
Sem notar que jamais poderia vestir a realidade com você
Porque não existe brancura sem mancha
Não existe amizade sem rancor
Porque não existe amor sem traição
Porque não existem sonhos sem o sono....
Porque você nunca foi, é ou será desta terra...
Você não tem nome, pertence apenas à fantasia de minha alma
Você é a minha mais angustiante traição contra mim mesmo!
Memórias da escuridão
Esse é o início da música SOUND OF SILENCE de Paul Simon que usarei como preâmbulo de algumas de minhas crônicas e/ou poemas que chamarei de MEMÓRIAS DA ESCURIDÃO. Seguindo a forma sugerida pelo título, estes textos não visam propriamente uma visão otimista do mundo, da vida e das relações entre os indivíduos de nossa raça. Isso porque até hoje não aprendi uma maneira diferente de ver essas coisas. No entanto, tudo na vida é volátil, e minha opinião que um dia pode ter sido diversa, pode novamente mudar. Mas em meio a toda a volatilidade do mundo, apenas uma certeza é perene: a perfídia...
quinta-feira, 5 de junho de 2008
O CONFESSIONÁRIO
A verdade era que Alencar era um boêmio. Era provável que já houvesse desfrutado de todas as senhoritas e senhoras que por ele demonstravam afeição. Mas, de longe, Juju era a que mais o atraia. Começara cortejando-a na vã esperança que, assim como as outras, ela logo caísse em sua lábia e se tornasse mais um troféu em sua coleção. No entanto, a seriedade da moça não tardou a se fazer sentir e Alencar fez gênero de “rapaz compromissado”. Fingiu tanto que, de flerte, o relacionamento transformou-se em namoro formal e, não muito depois, em noivado.
Não que ele não houvesse tentado. Mas a moça o repeliu:
Olha, meu bem, sei que você é homem e tem essas necessidades, mas quero que você saiba que só faremos isso após o casamento.
O rapaz engoliu em seco, mas como estava em época de farsa explícita se fez de rogado.
Os amigos já estranhavam o Alencar. Aparecia pouco para beber, só o viam na missa acompanhando a noiva e sua família. Mas, foi num sábado à tarde que ele surgiu no boteco com um sorriso nos lábios que competia em brilho com o gel do cabelo. Se pondo debruçado à mesa de bilhar, bradou:
Hoje ela não me escapa! Esperei todo esse tempo, ganhei a confiança dos pais e agora vou pro tudo ou nada. Os velhos vão viajar e ficam somente ela, a irmã caçula e uma tia que já está mais pra lá do que pra cá. Hoje vou usar o que tenho.
Esquece, Alencar! Espera o casamento – advertiu o Feitosa.
Esquece, qual o quê, Feitosa! Vou entrar de sola! Já fiz muito por essa mulher. Não agüento mais esperar. Mulher nenhuma me resistiu tanto.
Mas a guria é séria, rapaz.
Seriedade tem limite, Feitosa. Eu já não vou casar com ela? Qual é o problema?
E lá se foi o Alencar para casa de Juju, resoluto a acabar com a resistência da noiva aos seus encantos de amante. Não esqueceu, todavia, de levar um agrado para Aninha, a cunhadinha de 14 anos. Assim, a pequena se distraia e deixaria os noivos mais à vontade.
Lá chegando, fez-se notar que suas previsões se realizavam a contento. A velha tia cochilava copiosamente e a menina, deslumbrada com o presente, acorreu a seu quarto. Assim que viu a brecha, Alencar partiu para o ataque. Uns beijinhos inocentes, tornaram-se mais picantes, enquanto as mãos executavam manobras mais ousadas. Mas então Juju interrompeu o afã do conquistador. Empurrando o Alencar, desferiu-lhe um olhar medonho. Em todos aqueles anos, nunca o encarara de maneira tão dura. Aquilo desarmou completamente o malandro.
Já não lhe disse que não quero antes do casamento ? Será que você não pode respeitar meus princípios?
Ele ainda tentou balbuciar uma resposta qualquer, mas ela continuou.
Será que você só pensa nisso? É esse seu amor por mim?
Alencar foi esmagado pela convicção de pudor que saía dos lábios da noiva. Uma única palavra não pôde dizer, pois não havia o que ser dito. Sua bravura ia à lona no primeiro assalto. De tão mortalmente ferido em seu anseio, ele acabrunhou-se numa expressão de menino desprotegido, de animalzinho enxotado de casa. Lançou para Juju um desses olhares que a psicologia freudiana atesta que nenhuma mulher deixa de ser fisgada.
Oh, meu filho! Já não te disse que sou assim? Será que não percebeste? - O discurso era o mesmo, mas o tom da voz tornara-se maternal.
Alencar continuou calado e Juju relaxou ainda mais a fala:
Olha, Alencar, sei que não deve ser fácil para você. Mas queria que você tentasse isso por mim.
O pobre-diabo completamente vencido, suspirou. Com um pouco de atenção dir-se-ia que uma lágrima estava por lhe rolar na face.
Como gosto demais de ti e não te quero ver triste, vou te fazer uma coisa que mulher nenhuma faria por seu homem.
O quê? - perguntou Alencar.
Você pode sair com outras mulheres se quiser...
Mas...
Tudo bem, meu amor. Eu sei que tu me amas. E o amor está acima desses desejos da carne. Só quero que sejas sincero comigo. Quando saíres, quero que me diga que saiu, com quem e como foi.
Alencar, estupefato vacilou, mas a lógica de Juju tolheu-lhe qualquer reclamação.
Acho justo, pois estou te liberando de algo que nenhuma mulher abriria mão. Alencar apenas assentiu com a cabeça.
Jura?- ela quis confirmar.
Juro!
Passada uma semana, Juju o interpelou.
E aí?
E aí, o quê?
Você saiu com alguém?
Ora, Juju. Isso é pergunta?
Mas você jurou.
Alencar suspirou e, lembrando do juramento idiota, resolveu falar. Talvez se dissesse tudo, com exagero de detalhes, a escandalizasse a tal ponto, que ela desistisse dessa idéia ridícula.
Pois contou-lhe tudo sobre o encontro com Vera, a viúva da outra rua. Não segredou nada, deu minúcias das carícias, das reações da outra, do prazer próprio. Juju esteve muda durante toda a narrativa, corava a olhos vistos. Alencar, com a certeza da vitória, vendo àquela reação, dava tons mais loquazes à sua narrativa. Findo aquela inusitada confissão, Juju, com o ar perdido, disse apenas:
Boa noite. Até amanhã.
Convencido de que lhe dera uma lição, Alencar saiu satisfeito. Tinha certeza de que agora ela mudaria. Quiçá por ciúmes, resolvesse até mesmo esquecer seus pudores e moral para levar à cabo de uma vez por todas o relacionamento de ambos.
Voltou dois dias depois com um buquê de flores, sorriso estampado nos lábios. Esperava encontrá-la desesperada de ciúmes. Talvez um pouco zangada pela “traição”. Então, ele a lembraria da proposta que partira dela e Juju se prostraria, convencida da idéia estúpida. Choraria e pediria que ele não mais fizesse tal coisa. “Está no papo!”, pensou um segundo antes de ser surpreendido por um abraço e um grande beijo de Juju que, ao contrário do que sonhara Alencar, parecia eufórica.
E então? Tem outra para me contar?
Como assim?
Você saiu com ela de novo? Ou com outra?
Alencar não podia acreditar naquilo. Fez gesto de ir embora e atirou o buquê no sofá.
Conta! - foi tudo que disse Juju.
Ela não parou. Todos os dias era o mesmo interrogatório e Alencar já jurava que começara a enlouquecer. Pensou em desistir de tudo. “Mas aquele corpo de estátua de mármore...” Não podia, estava obcecado por Juju, mesmo apaixonado, ao menos por suas formas. Continuou contando estórias e apressou o casamento quando percebeu que não havia como fugir da armadilha.
A moça, porém, era insaciável. Pudica com os hábitos, Juju parecia se deliciar com os relatos do noivo, a tal ponto que, esgotadas as aventuras, Alencar teve que usar casos antigos ou mesmo inventar aventuras para saciar a sanha de ouvinte “bocagiana” dela.
Por fim, casaram-se com direito a uma linda festa em clube de bairro que Alencar nem se lembraria mais tarde, entorpecido que estava pela expectativa de finalmente ter um aparte com Juju. Só conseguiu se recordar o quanto teve que aguardar todo aquele cerimonial: cumprimento aos convidados, muitos dos quais nunca vira antes; a dança com a noiva, o corte do bolo. Quando, finalmente saíram, o rapaz já estava uma pilha de nervos, sem conseguir esperar que chegassem na nova casa.
A primeira noite como marido e mulher, foi decepcionante. Alencar era todo entusiasmo, mas Juju portou-se como um cadáver. Um cadáver, é verdade, de corpo escultural, mas ainda assim um cadáver. E assim foi também no segundo dia. Sufocado por uma opressão que lhe esmagava, saiu do ninho de amor com uma desculpa qualquer e foi encontrar os amigos no bar. Chorou todas as amarguras e recebeu os conselhos de paciência.
A frigidez é a sina das mulheres de princípios – vociferou Feitosa, aumentando o desespero do amigo.
Mas outros lhe disseram que aquilo era sintoma da inexperiência de Juju e que ele deveria ser carinhoso. “Com carinho, se consegue tudo!”.
Voltou para casa mais tranqüilo, como que munido de um antídoto para seus males. Era preciso ter calma!
Encontrou Juju na sala, visivelmente agitada. Foi se dirigindo ao quarto para trocar a roupa, mas a esposa o segurou pelo braço.
Alencar, quero te dizer uma coisa.
O que foi? - algo o perturbou no tom dela falar.
Estranhei um pouco nossas primeiras noites de casados.
Eu sei...Mas vou ter mais calma. Desculpa se...
Não precisa se desculpar, Alencar. A culpa não é sua. O problema é comigo. Mas queria te pedir uma coisa.
Peça...
Chamei minha prima, a Alice. Lembra dela?
Sim.
Pois bem, ela está em nosso quarto, agora.
Mas o que ela está fazendo lá?
Ela sempre teve uma queda por você.
Hã??? - seus olhos reviraram temendo o desfecho do diálogo.
Queria te pedir o seguinte: vamos fazer como no noivado?
Como assim?
Você vai lá no quarto e depois me conta tudo.
O quê?! - Não acreditava no que ouvia. Mas Juju esboçou um sorriso de mãe.
Por favor, Alencar. Assim eu gosto! Gosto mais assim. Mas me conta tudo, tá?
Duas lágrimas escorreram-lhe pela face, enquanto admirava o sorriso nervoso da esposa.
