A verdade era que Alencar era um boêmio. Era provável que já houvesse desfrutado de todas as senhoritas e senhoras que por ele demonstravam afeição. Mas, de longe, Juju era a que mais o atraia. Começara cortejando-a na vã esperança que, assim como as outras, ela logo caísse em sua lábia e se tornasse mais um troféu em sua coleção. No entanto, a seriedade da moça não tardou a se fazer sentir e Alencar fez gênero de “rapaz compromissado”. Fingiu tanto que, de flerte, o relacionamento transformou-se em namoro formal e, não muito depois, em noivado.
Não que ele não houvesse tentado. Mas a moça o repeliu:
Olha, meu bem, sei que você é homem e tem essas necessidades, mas quero que você saiba que só faremos isso após o casamento.
O rapaz engoliu em seco, mas como estava em época de farsa explícita se fez de rogado.
Os amigos já estranhavam o Alencar. Aparecia pouco para beber, só o viam na missa acompanhando a noiva e sua família. Mas, foi num sábado à tarde que ele surgiu no boteco com um sorriso nos lábios que competia em brilho com o gel do cabelo. Se pondo debruçado à mesa de bilhar, bradou:
Hoje ela não me escapa! Esperei todo esse tempo, ganhei a confiança dos pais e agora vou pro tudo ou nada. Os velhos vão viajar e ficam somente ela, a irmã caçula e uma tia que já está mais pra lá do que pra cá. Hoje vou usar o que tenho.
Esquece, Alencar! Espera o casamento – advertiu o Feitosa.
Esquece, qual o quê, Feitosa! Vou entrar de sola! Já fiz muito por essa mulher. Não agüento mais esperar. Mulher nenhuma me resistiu tanto.
Mas a guria é séria, rapaz.
Seriedade tem limite, Feitosa. Eu já não vou casar com ela? Qual é o problema?
E lá se foi o Alencar para casa de Juju, resoluto a acabar com a resistência da noiva aos seus encantos de amante. Não esqueceu, todavia, de levar um agrado para Aninha, a cunhadinha de 14 anos. Assim, a pequena se distraia e deixaria os noivos mais à vontade.
Lá chegando, fez-se notar que suas previsões se realizavam a contento. A velha tia cochilava copiosamente e a menina, deslumbrada com o presente, acorreu a seu quarto. Assim que viu a brecha, Alencar partiu para o ataque. Uns beijinhos inocentes, tornaram-se mais picantes, enquanto as mãos executavam manobras mais ousadas. Mas então Juju interrompeu o afã do conquistador. Empurrando o Alencar, desferiu-lhe um olhar medonho. Em todos aqueles anos, nunca o encarara de maneira tão dura. Aquilo desarmou completamente o malandro.
Já não lhe disse que não quero antes do casamento ? Será que você não pode respeitar meus princípios?
Ele ainda tentou balbuciar uma resposta qualquer, mas ela continuou.
Será que você só pensa nisso? É esse seu amor por mim?
Alencar foi esmagado pela convicção de pudor que saía dos lábios da noiva. Uma única palavra não pôde dizer, pois não havia o que ser dito. Sua bravura ia à lona no primeiro assalto. De tão mortalmente ferido em seu anseio, ele acabrunhou-se numa expressão de menino desprotegido, de animalzinho enxotado de casa. Lançou para Juju um desses olhares que a psicologia freudiana atesta que nenhuma mulher deixa de ser fisgada.
Oh, meu filho! Já não te disse que sou assim? Será que não percebeste? - O discurso era o mesmo, mas o tom da voz tornara-se maternal.
Alencar continuou calado e Juju relaxou ainda mais a fala:
Olha, Alencar, sei que não deve ser fácil para você. Mas queria que você tentasse isso por mim.
O pobre-diabo completamente vencido, suspirou. Com um pouco de atenção dir-se-ia que uma lágrima estava por lhe rolar na face.
Como gosto demais de ti e não te quero ver triste, vou te fazer uma coisa que mulher nenhuma faria por seu homem.
O quê? - perguntou Alencar.
Você pode sair com outras mulheres se quiser...
Mas...
Tudo bem, meu amor. Eu sei que tu me amas. E o amor está acima desses desejos da carne. Só quero que sejas sincero comigo. Quando saíres, quero que me diga que saiu, com quem e como foi.
Alencar, estupefato vacilou, mas a lógica de Juju tolheu-lhe qualquer reclamação.
Acho justo, pois estou te liberando de algo que nenhuma mulher abriria mão. Alencar apenas assentiu com a cabeça.
Jura?- ela quis confirmar.
Juro!
Passada uma semana, Juju o interpelou.
E aí?
E aí, o quê?
Você saiu com alguém?
Ora, Juju. Isso é pergunta?
Mas você jurou.
Alencar suspirou e, lembrando do juramento idiota, resolveu falar. Talvez se dissesse tudo, com exagero de detalhes, a escandalizasse a tal ponto, que ela desistisse dessa idéia ridícula.
Pois contou-lhe tudo sobre o encontro com Vera, a viúva da outra rua. Não segredou nada, deu minúcias das carícias, das reações da outra, do prazer próprio. Juju esteve muda durante toda a narrativa, corava a olhos vistos. Alencar, com a certeza da vitória, vendo àquela reação, dava tons mais loquazes à sua narrativa. Findo aquela inusitada confissão, Juju, com o ar perdido, disse apenas:
Boa noite. Até amanhã.
Convencido de que lhe dera uma lição, Alencar saiu satisfeito. Tinha certeza de que agora ela mudaria. Quiçá por ciúmes, resolvesse até mesmo esquecer seus pudores e moral para levar à cabo de uma vez por todas o relacionamento de ambos.
Voltou dois dias depois com um buquê de flores, sorriso estampado nos lábios. Esperava encontrá-la desesperada de ciúmes. Talvez um pouco zangada pela “traição”. Então, ele a lembraria da proposta que partira dela e Juju se prostraria, convencida da idéia estúpida. Choraria e pediria que ele não mais fizesse tal coisa. “Está no papo!”, pensou um segundo antes de ser surpreendido por um abraço e um grande beijo de Juju que, ao contrário do que sonhara Alencar, parecia eufórica.
E então? Tem outra para me contar?
Como assim?
Você saiu com ela de novo? Ou com outra?
Alencar não podia acreditar naquilo. Fez gesto de ir embora e atirou o buquê no sofá.
Conta! - foi tudo que disse Juju.
Ela não parou. Todos os dias era o mesmo interrogatório e Alencar já jurava que começara a enlouquecer. Pensou em desistir de tudo. “Mas aquele corpo de estátua de mármore...” Não podia, estava obcecado por Juju, mesmo apaixonado, ao menos por suas formas. Continuou contando estórias e apressou o casamento quando percebeu que não havia como fugir da armadilha.
A moça, porém, era insaciável. Pudica com os hábitos, Juju parecia se deliciar com os relatos do noivo, a tal ponto que, esgotadas as aventuras, Alencar teve que usar casos antigos ou mesmo inventar aventuras para saciar a sanha de ouvinte “bocagiana” dela.
Por fim, casaram-se com direito a uma linda festa em clube de bairro que Alencar nem se lembraria mais tarde, entorpecido que estava pela expectativa de finalmente ter um aparte com Juju. Só conseguiu se recordar o quanto teve que aguardar todo aquele cerimonial: cumprimento aos convidados, muitos dos quais nunca vira antes; a dança com a noiva, o corte do bolo. Quando, finalmente saíram, o rapaz já estava uma pilha de nervos, sem conseguir esperar que chegassem na nova casa.
A primeira noite como marido e mulher, foi decepcionante. Alencar era todo entusiasmo, mas Juju portou-se como um cadáver. Um cadáver, é verdade, de corpo escultural, mas ainda assim um cadáver. E assim foi também no segundo dia. Sufocado por uma opressão que lhe esmagava, saiu do ninho de amor com uma desculpa qualquer e foi encontrar os amigos no bar. Chorou todas as amarguras e recebeu os conselhos de paciência.
A frigidez é a sina das mulheres de princípios – vociferou Feitosa, aumentando o desespero do amigo.
Mas outros lhe disseram que aquilo era sintoma da inexperiência de Juju e que ele deveria ser carinhoso. “Com carinho, se consegue tudo!”.
Voltou para casa mais tranqüilo, como que munido de um antídoto para seus males. Era preciso ter calma!
Encontrou Juju na sala, visivelmente agitada. Foi se dirigindo ao quarto para trocar a roupa, mas a esposa o segurou pelo braço.
Alencar, quero te dizer uma coisa.
O que foi? - algo o perturbou no tom dela falar.
Estranhei um pouco nossas primeiras noites de casados.
Eu sei...Mas vou ter mais calma. Desculpa se...
Não precisa se desculpar, Alencar. A culpa não é sua. O problema é comigo. Mas queria te pedir uma coisa.
Peça...
Chamei minha prima, a Alice. Lembra dela?
Sim.
Pois bem, ela está em nosso quarto, agora.
Mas o que ela está fazendo lá?
Ela sempre teve uma queda por você.
Hã??? - seus olhos reviraram temendo o desfecho do diálogo.
Queria te pedir o seguinte: vamos fazer como no noivado?
Como assim?
Você vai lá no quarto e depois me conta tudo.
O quê?! - Não acreditava no que ouvia. Mas Juju esboçou um sorriso de mãe.
Por favor, Alencar. Assim eu gosto! Gosto mais assim. Mas me conta tudo, tá?
Duas lágrimas escorreram-lhe pela face, enquanto admirava o sorriso nervoso da esposa.

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