Carlinhos olhava para os cílios da boneca com um encanto hipnótico. Parecia que aqueles grandes olhos azuis queriam sugar sua alma. “Tão lindos aqueles olhos”, pensou um momento antes de imaginar que os da sua mãe também deveriam ser assim. Tocou os seus próprios cílios para constatar que não eram iguais aos da boneca e, ainda alheio ao mundo ao redor, passou a penteá-los como que tentando deixá-los ondulados como os que admirava.
- Carlinhos, você está aqui, menino? - a voz da tia ressoou já no abrir da porta, sem lhe dar tempo de largar a boneca.
Flagrado em seu ato de contemplação, Carlinhos continuava penteando pateticamente os cílios, sob o olhar estupefato da tia.
- O que você está fazendo com essa boneca, menino? - a pergunta veio como uma rajada da qual não conseguiu escapar. Nada lhe veio à cabeça. Largou os próprios cílios, mas não conseguiu fazer o mesmo com a boneca.
A tia Helena se aproximou vorazmente de Carlinhos e num safanão tomou-lhe o brinquedo das mão, retornando-o à penteadeira para a companhia de um punhado de outras bonecas e ursinhos de pelúcia que dividiam espaço com perfumes, cremes e escovas de cabelo. Feito isso apertou o braço do sobrinho e vociferou:
Vá agora mesmo tomar um banho para jantar!
Carlinhos apenas levantou-se ainda mudo e fez menção de sair do quarto, sob o olhar severo da tia. Mas não o fez sem antes fitar uma última vez a boneca, seus profundos olhos azuis e seus cílios ondulados. “Os de minha mãe deviam ser assim! Os meus nunca serão”, foi o que pensou ao deixar, cabisbaixo, o quarto da tia.
Helena acompanhou a saída do sobrinho. Um vendaval de pensamentos perturbadores varria sua cabeça naquele momento. “Esse menino não pode puxar ao pai, meu deus. Por favor, não permita”. A lembrança do irmão já morto era aterradora para ela.
Sandoval casara com Lourdes a despeito de toda a desconfiança das duas famílias sobre seus modos afetados e seus traços suaves de “menina-moça”. Mesmo Lourdes não ligava muito para isso e mantinha com o rapaz um relacionamento afetivo, porém distante. Ninguém os chamaria de namorados se os visse caminhando pelas ruas, no máximo de amigos. Por outro lado, para Lourdes o casamento trazia suas vantagens, sendo a principal delas, o fato de livrar-se dos arreios do pai.
Carlinhos nascera apenas no segundo ano de casados. A distância entre os pais permanecia mesmo depois disso, o que alimentava línguas ferinas a insinuarem sobre a dúvida da paternidade do rebento, a despeito da criança guardar enorme semelhança com os traços do dito pai.
Três meses após o nascimento do primogênito, Sandoval se viu em meio a uma onda de boatos sobre seu relacionamento com um tal de Antônio Carlos, um ajudante de escritório que trabalhava como seu subalterno. Os dois eram vistos sempre juntos, ou como soava a sanha da vizinhança: “Estavam mais juntos do que Sandoval e Lourdes”. Daquele dia em diante, não se sabe porque, Lourdes, que sempre fora indiferente ao comportamento do marido e do que dele se dizia, passou a brigar discutir constantemente com o marido a respeito de seu parceiro de trabalho. Insuflada pelos comentários ao seu redor, a esposa vigiava o marido noite e dia, revistando seus bolsos, controlando seus horários. Até mesmo uma cena pública no escritório de Sandoval foi protagonizada por ela, ao encontrar o marido e Antônio Carlos sozinhos na sala a trocarem sussurros.
De alma discreta, Sandoval buscou resguardar-se depois desse incidente. A idéia de ter todo o escritório comentando a seu respeito o aterrorizava mais que qualquer outra coisa. Se afastou de Antônio Carlos. Mas, murchava a olhos vistos dia após dia. A despeito da surpreendente atenção que passou a receber da esposa, tornando-os, pateticamente, um “casal normal”, o homem só definhava. Passado um mês do tal escândalo no trabalho, desistiu de ir ao escritório e transformou-se num eremita em sua própria casa. Somente, em algumas ocasiões raras, era visto contemplando o pequeno Carlinhos no berço, com um sorriso de palerma estampado nos lábios. A vida se arrastou assim durante mais um mês, quando as contas já eram custeadas pela família da moça. “Sandoval está muito doente!” Era apenas o que Lourdes repetia como um mantra a todos que buscavam mais material para fofocas do bairro. Mas foi num domingo quando a esposa se retirara para ir à missa, orar pela sua “recuperação”, que a desgraça se deu. Voltando da paróquia, Lourdes abriu o portão já escutando o choro do filho. Um choro convulsivo. Imaginou que Sandoval devia estar dormindo e o menino com as fraldas sujas. Uma raiva momentânea lhe varreu a alma. Não sabia ainda o que estava fazendo naquela casa. Com aquele homem maltrapilho. Logo em seguida, recriminou-se por estes pensamentos. Entretanto, ao entrar em casa, um grito horripilante lhe vazou a garganta. Os transeuntes da rua em frente à residência, pararam para esperar o desfecho daquele terrível agouro. Sandoval, trajando um lindo vestido vermelho que pertencia à esposa, pendia de uma corda amarrada no telhado e atada ao seu pescoço. Poucos centímetros além de suas pernas, estava o berço do filho, esganiçando, talvez pela fralda ou pela cena macabra que se desenhava em seus olhos “quase virgens”.
Depois do suicídio do marido, Lourdes como que louca, abandonou a casa e deixou para trás o próprio filho, como um espólio de algo maldito que ela, porventura imaginava, ter sido causadora. Desde então, Carlinhos passara a guarda da tia solteira, Helena.
Eram essas horríveis lembranças que solapavam a mente de Helena ao encontrar Carlinhos em seu quarto, tão absorto com suas bonecas. Temeu que a herança deixada por Sandoval para o filho fosse a repetição de seu malfadado destino.
Porém, à medida que o tempo transcorreu seus temores foram se dissipando. Carlinhos crescia em meio aos outros meninos, sem aparentemente guardar nenhum traço que o ligasse ao seu pai, além do belo rosto e do sorriso cativante, que ainda estavam guardados na memória de Helena.
A tia se orgulhava do sobrinho. Crescia forte e aos quinze anos já tinha um corpo de físico muito avantajado comparado aos de sua idade. Na escola, era um dos melhores alunos e entre as pequenas já despertava suspiros de desejo. Os temores de Helena, transformavam-se em uma admiração crescente pelo menino. Cada vez era mais carinhosa com ele e o protegia como a um tesouro. Era como se toda sua vida, até então desprovida de um sentido, ganhasse nos músculos daquele menino um propósito. Carlinhos era seu bem mais precioso. À medida que via o menino se aproximando de menininhas de sua idade, passou a ter ciúmes, assim como também de senhoras mais assanhadas que nele viam um imberbe eros.
Assim, Helena que antes se martirizava em dúvidas sobre a virilidade do sobrinho, passou a vigiá-lo, temendo o que outrora pedia em suas orações. Começou controlando as amizades de Carlinhos, sem deixá-lo sair com alguns amigos que considerava como “más influências” para sua alma ainda nem juvenil. Depois, passou aos horários e os lugares que o menino ia em suas poucas liberdades de casa-escola.
Como conseqüência da rigidez da tia, Carlinhos iniciou uma interiorização que trouxe uma sombra de medo sobre Helena. Então, era ela que o levava aos lugares. Iam ao cinema, a sorveteria, caminhavam na praça. Para Helena, Carlinhos estava sempre triste, sempre precisando de sua companhia.
Era uma noite tempestuosa. Ilhados em casa, sem cinema, sorveteria ou qualquer outro divertimento. Eles apenas jantaram sozinhos à mesa da cozinha. Arrumaram os pratos, como sempre faziam. Um silêncio constrangedor emudecia a casa, como em respeito aos trovões de lá fora. Depois disso, sentaram à sala e ligaram a televisão, sem nada dizerem um ao outro. Helena, lia um jornal quase passado, enquanto Carlinhos assistia um telejornal, sem lhe dar atenção. Ficaram assim por meia-hora até subirem ao quarto.
Helena, ouvindo os trovões e o eco do silêncio que ainda se perpetuava na casa se perdeu em meio aos pensamentos de apreensão sempre dirigidos à figura de seu protegido. Tentou dormir e não conseguiu. Tentou ler um livro para fazê-lo e não funcionava. Até que a energia do bairro se rendeu à tempestade e escureceu tudo. Um surto tomou conta de seu espírito. Temeu pela segurança de Carlinhos, sozinho em seu quarto escuro. Talvez triste, revirando na cama. Levantou-se com uma vela à mão e foi até Carlinhos.
Carlinhos, a luz caiu. Acho que com essa tempestade não volta mais hoje à noite. Vem para meu quarto, não quero você sozinho com a casa toda escura.
Mas tia, não tem problema! Eu não tenho medo do escuro.
Não discute comigo, menino! - a voz dela alcançava um tom de irritação que surpreendeu.
Carlinhos levantou-se ainda coberto com o lençol. Não carregava nenhuma camisa e apenas uma cuequinha de dormir. Foi à frente de Helena, enquanto a tia iluminava o caminho com a vela. Os ombros desnudos de Carlinhos chamaram a atenção da tia. Achou o sobrinho ainda mais belo na penumbra. O escuro ajudava a contornar os músculos florescentes do menino. Uma alegria inesperada a invadia. Quase uma euforia desconhecida.
Entraram no quarto. Helena deitou-se no lado esquerdo da cama e deixou espaço para o menino. Carlinhos, ainda com uma expressão contrariada deitou-se e se cobriu com o lençol, virando o rosto para o lado contrário ao da tia. O silêncio só era desrespeitado pela chuva e pelos trovões. Helena se aproximou do menino que, encurralado, não tinha como fugir. No início ela passou as mãos pelos cabelos dele como que invocando seu sono. Passou a acariciar também a testa e, depois, desceu o lençol para afagar o peito desnudo. Contornava, com a ponta dos dedos, o tórax e delineava as curvas recentes do diafragma.
Carlinhos se impacientava, Helena persistia em sua investida, sem nem mesmo se dar conta do significado de seu ato. O menino, quase violado, tremia em seu íntimo e em seu exterior. Foi quando um relâmpago irrompeu pelo quarto, iluminando a penteadeira da tia, seus cremes, escovas e...bonecas.
Helena aproximou seu rosto do da criança. Seus lábios se abriam na iminência de um beijo. Carlinhos reclinou seu rosto para fora da cama, como a querer fugir. Helena seguiu seu movimento, mas antes que perpetuasse o incesto, Carlinhos se desvencilhou dos braços da tia e correu para a penteadeira. Pegou a boneca de olhos azuis e grandes cílios e com ela sentou-se no chão, iniciando o mesmo ritual de alisar os cílios da boneca e os seus próprios.
Aprisionada por seu desejo podado e pela surpresa na atitude do sobrinho, Helena apenas gritava pelo nome do menino: - Carlinhos! - e na indiferença dele, a mulher padeceu de uma tristeza aterradora que se transformou em lágrimas, copiosas lágrimas. Mas, à parte de todo esse espetáculo, Carlinhos apenas acariciava os cílios da boneca na penumbra do quarto e imaginava que estes cílios deveriam ser iguais aos de sua mãe. Mãe que nunca conhecera, mas que guardava no fundo da memória uma imagem que sempre recorria nos momentos de saudade. Sua mãe sobre sua cabeça, grandes cílios a flutuar como um anjo em um vestido vermelho. Sorriu para a boneca quando pôde ver os grandes olhos azuis iluminados pelo relâmpago que clareou o quarto.

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