domingo, 14 de setembro de 2008

Uma névoa na alma

"Olá escuridão, minha velha amiga, venho falar-lhe novamente..."

A chuva teimava em cair mesmo em pedaços. Era como se minha alma chorasse por todo o dia. Era como se minha dor se materializasse em lágrimas que crispavam o dia, que retirava qualquer sinal do céu que pudesse ser confundido com alegria. Caminhei sentindo o frio e não sentindo nada, pois assim está meu espírito já há alguns anos. Vive em uma eterna cãibra que faz com que todos os dias sejam cinzas e frios ou quentes e ensolarados mas, acima de tudo, iguais. Uma eterna cacofonia monocromática...




Parei por um instante para ver a mulher passar com aquele carrinho de bebê. Ela sorriu, não para mim, talvez para o mundo. Eu sorri de volta. Para ela. Queria dizer-lhe como aquela alegria que ela demonstrava ao carregar seu filho me satisfazia. Mas também apertava meu coração. Sim, naquele momento revi meus três filhos natimortos. Natimortos antes mesmo de serem gerados. Natimortos pela perfídia do homem. Meus filhos pertencem aos sonhos, ao doce mundo do ilusório, onde não existe a mentira ou a traição. Mas estas o descobriram antes que a realidade e, por isso, desse mundo tão perfeito eles nunca puderam sair. Ali ficaram presos Daemon, Hristo e Tite, em nomes e lembranças. Lembranças que nunca houveram. Brincadeiras que nunca existiram, apenas a dor de uma idéia que morreu.

Eu sigo pela calçada. As mão dentro dos bolsos, tentando aquecer minha superfície, enquanto meu núcleo está gélido. Está congelado. Nele não se encontra mais sentimentos. Só um sorriso como o daquela mulher, às vezes, me faz notar que me falta algo. Ou talvez também eu note quando percebo que não sei diferenciar os dias. Pois todos são iguais. Como uma deliciosa comida sem sentir sabor. Assim tem sido minha vida ou minha tentativa dela. E sorrisos como o daquela mulher me ferem como uma lâmina aguda sendo empurrada pelas minhas entranhas. É o contraste de saber que existe algo distinto do que sinto. Gostaria de sentir tristeza, gostaria de chorar pelo cadáver que me deixou assim. Porém, não existe cadáver. Existe alguém, uma coisa, um monstro que se aproximou de mim, que me seduziu, que sussurou aos meus mais íntimos segredos, às minhas mais secretas ambições e depois me traiu. Me apunhalou, tornou-se uma crisálida negra, sem que eu tenha percebido. E vôou. E então eu me percebi orfão de meus filhos, de meus sentimentos, eu me senti orfão de mim mesmo...Nem um cadáver tenho para chorar.

Sigo então pela calçada, mão nos bolsos, olhando para o céu cinza e esperando que mais alguém sinta o que eu sinto, para que eu não me ache tão solitário...Sem sentir nada...Apenas vendo o sorriso daquela mulher e de sua bela criança e fantasiando, como quem assiste um filme, ser eu e não ela que guia aquele carrinho...

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