sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A dor

Ainda me lembro de seu rosto. Ele estava no canto do bar quando passei. Nada parecia especial nele. Lembro de ter me olhado meio de sopetão e depois virado a face como se não quisesse ser reconhecido. É engraçado quando estamos em outro país e encontramos algum compatriota. Num primeiro momento parece que você o reconhece. Deve ser algum sinal silencioso que lhe entrega. Eu não estava trajando nada especial, nem mesmo uma fita ou boné da seleção. Se bem que mesmo que estivesse não signficaria muita coisa. Eram tantos os espanhóis disfarçados de brasileiros pelas ruas de Barcelona que, qualquer um, podia se passar por tupiniquim, a não ser que tivesse aquele sinal invisível de reconhecimento.

Sentei-me e pensei que talvez o sinal fosse alguma manifestação da extrema tristeza que eu sentia agora. Não chorava desde criança, a partir do final do jogo algo estava machucando minha garganta. Era como uma imensa bola que não queria descer, meu corpo todo estava mole e não era culpa de bebida nenhuma, apenas daquela apatia de espírito, daquela tristeza sem solução. Foi quando eu o olhei novamente. Senti vontade de puxar conversa, mas não sabia como começar. Era óbvio o que dizer, falar sobre a derrota para os italianos. Mas até lembrar disso era dolorido e naquela hora que lembrei era como se me sentisse num pesadelo. Era mesmo verdade que havíamos perdido? Não disse nada no final das contas, apenas olhei em sua direção. Mas foi esse olhar que o encorajou a se aproximar de mim. Ainda me lembro de seu sorriso contorcido no rosto. As pupilas saltavam dos olhos que estavam caídos sobre duas “bacias” escuras de olheiras. Provavelmente produzidas por choro. Sim, certamente era um brasileiro. Estava chorando da mesma dor que eu e ao menos podia chorar. Mas era algo ainda maior o que eu via. Parecia que ele estava totalmente transtornado em seu sentimento. Era como se houvesse perdido um parente ou algo assim. Lembrei-me imediatamente da frase que vira pichada num muro perto do Sarriá : “Há pessoas que dizem que o futebol é assunto de vida ou morte. Eu os asseguro, é muito mais sério que isso!”. Estava com essa frase pronta para iniciar nossa conversa, quando meus pensamentos foram interrompidos pelo esgar de sua voz:

-Por que as coisas são assim? Por que a vida nos faz isso?

Não tinha uma resposta. Meneei a cabeça em tom de concordância, mas o certo era que a dor daquele homem era maior que a minha, muito maior.

-Você acha que é líquido e certo. Que para sempre será aquela felicidade. Nós tivemos dias tão felizes...Como pôde ser assim? Como pôde terminar assim?

-Acontece... - uma frase óbvia na ausência de qualquer outra.

-Acontece?Acontece? - é o que todos dizem. - Será que você não tem algo melhor para me dizer?

-O que você quer que eu diga?

-Que me explique porque a vida pode ser tão cruel. Porque ela nos deixa fantasiar tanto, nos permite achar que encontramos algo especial e depois nos tira, como se estivesse brincando conosco.

-Eu não sei amigo. Talvez você aceite dividir um copo de bebida comigo e podemos tentar responder isso.

-Não há tempo...Não há tempo.

-Claro que há. Tudo o que mais temos agora é tempo. “Muchacho!” - assobiei para o garçom. Ele veio e usei um pouco de meu “portunhol”.

-Dos doses de tequila para yo e mi amigo acá! - ele fez que sim com a cabeça e saiu para pegar a bebida. Eu já estava me convencendo que sabia falar espanhol. Um pouco de alegria em meio à nossa decepção.

Voltei-me para meu novo amigo para retomar a conversa e tentar sairmos um pouco daquela ladainha. Pensei como era bom encontrar alguém mais triste do que eu. Isso fazia com que eu censurasse minha própria tristeza e me sentisse forte por um instante.

-Então amigo, vamos tentar esquecer isso amargando tudo neste copo. Um brinde à felicidade que não se completa.

Ele brindou atarantado, como se eu houvesse dito algo que ele não esperava. Como se tivesse lido seus pensamentos.

-A vida é assim mesmo. Um dia estamos no céu. No dia seguinte no inferno. Amanhã quero apenas estar de ressaca. E é bom você também esperar por isso.

-Amanhã? Acho que eu não terei um amanhã.

-Puxa, amigo. Como você é melodramático. Eu achei que eu fosse o maior de todos, mas sou “pinto” perto de você.

-Preciso ir. Não sei para onde. Tenho que me esconder. Mas não consigo deixar de lembrar. Não consigo deixar de lembrar...

-Eu também não deixo de lembrar daquela maldita bola do Cerezo. Mas ainda pior para mim foi aquela bola que o Serginho chutou na frente do Zico. Puxa, mas que cara grosso. Se fosse o Galinho, estaríamos comemorando agora. E vejam só, por causa da grossura daquela “anta” estamos aqui maldizendo a vida. Não é?

-Hã? O quê? Zico? Serginho? Cerezo?

-Puxa, amigo, você está mesmo mal.

-Do que você está falando?

-Não lembra desse lance?

-Lance? Lembro do beijo. Lembro do tiro. Lembro do sangue...

-Beijo? Sangue?! - minha espinha foi completamente visitada por um calafrio que congelou toda a minha alma. Por um instante achei que estivesse delirando. Achei que tivesse certeza de que aquele homem estava falando de um homicídio. E me preparei para o pior.

-Escuta amigo: você estava falando da derrota da seleção para a Itália há pouco não era?

-Não. Sim. Não. Oh, meu deus! - o homem caiu no balcão e desabou a chorar. As pessoas olharam em nossa direção assustadas. Alguns homens vestidos de azul no fundo riam em tom sarcástico. Eles também pensavam que fosse uma dor de futebol. Eu estava transtornado. Não conseguia sequer sentir raiva dos italianos no fundo do bar. Não conseguia sentir raiva nem mesmo de Paolo Rossi. Na verdade preferia estar bebendo com ele ali do que com o que eu imaginava que era a pessoa com quem eu bebia.

-Hã...Amigo, vamos sair daqui. Podemos conversar mais lá fora, está bem?

Nem sei porque fiz isso. Era como se eu quisesse fugir do bar, com medo que as outras pessoas constatassem o mesmo que eu imaginava que tinha constatado. Ou talvez só quisesse me livrar dele, mas ao mesmo tempo sentia uma pena daquele infeliz. Fosse o que fosse saimos do bar e sentamos numa calçada num beco ao lado. Era escuro, a pouca luz que ainda visitava o lugar conseguia iluminar apenas parte dos nossos rostos. Ele ainda chorava. Pensei em começar uma nova conversa, perguntar seu nome, dizer o meu. Mas me veio à cabeça que se minhas preocupações fizessem algum sentido era melhor saber o menos possível dele e que ele soubesse o mínimo de mim. Novamente fui assaltado pela vontade de ir embora, mas quando olhei para aquele "desespero ambulante" que enxugava as lágrimas em atos infantis a poucos metros de mim, me censurei por pensar em fazer isso.

-Sabe amigo, você me deu um susto. Falando aquelas coisas de beijo, tiro e sangue. Cheguei a pensar besteira, mas é claro que você está assim pelo que aconteceu hoje, não foi? Digo, pelo que aconteceu no jogo do Brasil, não é?

-Hum? - esse "hum" quase me fez perder a paciência. Era óbvio que ele estava transtornado, mas aquilo tudo não podia ser apenas pela nossa desclassificação, por mais doída que tenha sido. E me veio na cabeça o lance do Serginho. Balbuciei, quase sem perceber - Grosso!

-Sua tristeza é toda porque o Brasil perdeu para a Itália? Por causa daquilo que o Paolo Rossi nos fez?

-Paolo Rossi? - seus olhos ganharam uma vida nova. Era como se eu tivesse apertado um botão. Primeiro ele ficou mais atento, seus olhos não pendiam mais nas órbitas, fixavam um ponto. Sua expressão indicava um esforço para recordar algo. - Claro, o Rossi. Aquele desgraçado. Como ele pode fazer isso? Como ele pode me fazer sofrer tanto? Não bastava já ter feito gols? Mas eu o matei, eu o matei!

Relaxei com aquela frase. O homem dizia que tinha matado o Paolo Rossi. Era um delírio completo. Ele devia estar bêbado ou coisa pior, mas certamente meus temores eram infundados.

-Você viu como jogamos bem contra a Itália? - ele agora tagarelava animadamente. - Melhor até do que contra a Argentina. Você viu os deslocamentos do Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico? Puxa, que coisa linda aquilo. Me fazia lembrar a Holanda, em 74. O Zico pega a bola pelo meio e o Sócrates entra pela ponta, a defesa da Itália fica perdida. Gol! Que gol! Que construção! Que maneira de jogar! Acho que o Telê é um gênio.

-É. Acho que o Telê devia ser presidente do Brasil. Assim ele bolava uma tática para acabar com a inflação e a dívida externa.- Disse isso e ri, querendo que meu companheiro de conversa também risse. Há poucos minutos pensava que estava na frente de um assasino e agora ali, parado, falando, estava apenas um bom entendedor de táticas, como 99% do povo brasileiro nesses últimos meses.

-Mas depois veio o maldito Rossi. Rossi, onde ele estava antes? Porque eu não o vi? Porque eu não percebi. Estava tão claro.

-Claro? Você tá falando bobagem, amigo! Não tinha nada caro. O sujeito tava sem fazer um gol a Copa toda, não jogava desde não sei quando. Como é que a gente podia esperar isso?

-Mas não importa. Ele está morto. O sangue, eu vi ... O sangue! Eu o matei. Nunca mais ele fará nada para me magoar! Mas e ela? Por que ela fez isso? Oh, meu deus! Por quê?

-Por favor, amigo. Você não está falando coisa com coisa. Quem é "ela"?

Ele olhou para mim como se estivesse tentando entender minha pergunta. Respirou fundo e novamente se acalmou. Sua voz começou a deslizar calmamente pela garganta.

-Chegamos à Espanha para acompanhar a Copa. Eu, Elisa, minha mulher, Carla e Eduardo, nossos amigos. Estávamos muito felizes. Eu e Elisa havíamos casado há pouco tempo, seis meses, e era nossa primeira viagem internacional. Todos estávamos alegres em estarmos num outro país e em acompanharmos a seleção. Eu sempre gostei muito de futebol e cresci com meu pai falando da seleção de 70. Só tinha 9 anos na época e não lembro de muita coisa. Lembro apenas da alegria das pessoas, mas não lembrava dos jogos. Minha família não tinha tv e acho que cheguei a ver apenas pedaços de um jogo ou outro. E essa seleção jogava tão bem, tão belamente. Meu pai dizia-me que lembrava "As feras do Saldanha". Achei que veria de novo o Brasil ser campeão.

Ele agora falava admiravelmete calmo e com um discurso completamente coerente e articulado. Novamente aquela sensação de incômodo me tomava. Porém desta vez eu estava fisgado. Precisava saber o que tinha acontecido àquele homem. Ele continuou falando.

-Então convenci Elisa a guardarmos parte do dinheiro de nossa lua-de-mel para comprarmos a passagem para a Espanha e vermos alguns jogos da Copa. Ela gostou muito da idéia. E convidamos nossos melhores amigos, Eduardo e Carla. Eles casaram quase ao mesmo tempo que nós, mas os conhecíamos há muito tempo. Eu e Carla éramos amigos desde a época do segundo grau e conheci Eduardo quando eles começaram a namorar. Viemos para Espanha e tínhamos ingressos para dois jogos na primeira fase, nos jogos contra a URSS e contra a Escócia. Era óbvio que não precisávamos ver contra a Nova Zelândia. E todas as entradas para os jogos que viessem a seguir. Tudo era uma alegria completa. Nos hospedamos num hotel, passeamos todos os dias, tínhamos camisas, batulaques e tudo que era necessário para torcermos pela seleção. Eu estava tão feliz e me sentia mais feliz ainda quando via como minha mulher estava contente. Num primeiro momento pensava que Elisa poderia se sentir triste. Ela não gosta muito de futebol, mas estava alegre. Pensava que era porque estávamos imersos naquele clima de carnaval.

Ele deu um grande suspiro. Notei que seus olhos começavam a marejar, mas uma respiração a mais controlou o iminente choro.

-E tudo que eu queria era que ela estivesse feliz comigo. Era como se minha felicidade fosse secundária. Era como se me sentisse eternamente em dívida com ela. Acho que, no fundo era isso mesmo. Eu me sentia em dívida por ela ter me dado alegria para viver. Nunca pensei que uma mulher como ela pudesse se interessar por alguém como eu. Nosso relacionamento era bom, mas eu sempre sentia falta de algo e sempre pensava que o problema estava comigo. Mas aqui na Espanha isso desapareceu. Ela estava feliz, eu também.
No primeiro jogo, ela quase não ia, disse que preferia ficar fazendo compras com Carla, porque ninguém estaria nas ruas. Mas acabou indo e foi uma tarde maravilhosa, mesmo se lembrarmos que o juiz nos ajudou. Mas aqueles gols de Sócrates e Éder, foram maravilhosos, não foram? Quando Éder acertou aquele chutaço que o Dasaiev deve estar procurando até agora, ela me abraçou e minha alegria era multiplicada. Eu nunca saberia usar palavras para fazer alguém entender o que eu senti naquela hora.
Na segunda partida, eu mesmo tomei a iniciativa de incentivá-la a sair com Carla, enquanto eu e Eduardo íamos ao estádio. Voltei tão feliz de lá, mas com uma certa culpa rangendo em mim, porque não pude dividir com ela aquele sentimento tão sublime que carregava em minha cabeça e meu coração. Depois saimos de Servilha e viemos para Barcelona e eu nunca me senti tão completo como naqueles dias. Mas acho que todos nós estávamos muito deslumbrados, não é? Você lembra de um outro time que jogasse tão bonito? Cresci com meu pai me contando estórias que eu semprei pensei que fossem lendas. O Wunderteam da Áustria, o Arancsapat da Hungria de Puskas. Mas o que eu vi aqui me fez acreditar que as lendas são reais. Fiquei arrepiado pensando no dia que contaria essas estórias ao meu filho.
Contra a Argentina comemoramos a noite toda naquele bar, naquela rua, como é mesmo o nome
? - Ele parou tentando puxar pela memória. Como eu não sabia nome de nenhuma rua, apenas silenciei - Não importa! Estava tudo muito perto...Tão perto. Oh, meu deus, por quê? - e ele desatou a chorar novamente.

Eu não sabia o que pensar. Teimava em adivinhar o final daquela estória, mas à medida que ele a contava, temia que o desenlace fosse o mesmo que eu já havia pensado desde o bar. Mas eu precisava saber se era isso ou se estava apenas desperdiçando meu tempo com um lunático.

-Você quer para de falar sobre isso? - perguntei na expectativa que ele se negasse a fazer isso.
-Não. Preciso falar, eu acho. Não sei. Não sei mais nada. Estou tão confuso. Nada mais faz sentido. O que sinto é um vendaval em minha cabeça. Como se a verdade tivesse sido-me revelada, cruel como apenas ela sabe ser. Me sinto assim desde o gol do Sócrates hoje. Eu pulei, xinguei, mas tinha algo dentro de mim dizendo que era tempo perdido. Aquela alegria parecia fugaz, me sentia como se estivesse fechando os olhos para algo que estava nítido e eu teimava em fingir que não via. No início apenas pensei que estivesse preocupado porque deixara Elisa no hotel, doente. Ao menos Carla ficara com ela. Carla e Eduardo, porque a esposa insistira para ele ficar. Eu também ficaria, mas Elisa insistiu para que eu fosse, me lembrou todo o dinheiro economizado para aquilo. Eu fui, vi o gol da Itália, depois o empate, mas de alguma maneira aquele gol foi um bofete em meu rosto. Passei a me sentir um iludido. Iludido com toda a minha vida, simbolizada naquele balé da seleção. Comecei a perceber como minha felicidade estava calcada em terreno arenoso. Em como era preciso não mais que um vento para tudo ser revelado. Um vento como Paolo Rossi. Era como se ele fosse a personificação da verdade, me mostrando como sempre a fantasia era derrotada. Em como a fantasia de minha vida era frágil. Quando a Itália fez o terceiro gol, tudo fez sentido. Tudo estava claro. Não adiantava me esconder. Eu sai do Sarriá imensamente triste, perdido e com uma dor tremenda carregada comigo. Não conseguia chorar. Parecia que já tinha vivido aquilo inúmeras vezes. Como se estivesse revisitiando pela enésima vez uma tristeza profunda. Pior ainda era aquela sensação de que não vira tudo, de que a estória ainda não se encerrara.
Fui caminhando pelas ruas da cidade em direção ao hotel, sem consciência. Não estava triste pela derrota que eu nem mesmo ficara para ter certeza de que fora uma derrota. Porque desde que vi a expressão do Rossi na comemoração sabia que havíamos perdido desde sempre. Estava triste por algo maior. Um algo que se revelou quando eu abri a porta do meu quarto no hotel e ela estava lá, nua, beijando...ele. O Rossi! Era o Rossi que estava lá com ela. Me tirando a última coisa que eu tinha. E tudo que ela me disse foi: - Por que você chegou agora?

Eu estava catatônico. Olhei nos olhos dela e depois para ele. Foi então que eu vi um esboço de sorriso em seu rosto. Um esgar que escarnecia minha tristeza. Sai do quarto, fui a cozinha. Fogos de artifício lá fora. Barulho, muito barulho. Eu voltei para o quarto com a faca: - Meu amor, olha...- foi a última coisa que ela disse antes que eu cravasse a faca em seu peito. Eu não sei se chorava. Não eu não chorei. Estava lá e não estava. Ela escorregou entre minhas mãos e caiu no chão ainda viva. Tentou gritar, mas ninguém ouviria nada. - Forza Italia! - Era tudo que se ouviria naquela hora. Corri em direção a ele. Ao maldito. Como ele poderia me tirar todas as alegrias no mesmo dia? Como? Com que direito? Ele tentou gritarm enquanto eu segurava seu pescoço. Não adiantaria - Forza Italia! Fogos de artifício. Não adiantaria. Todos estavam loucos naquela hora, alguns de euforia, outros de tristeza. Eu o peguei e cravei-lhe a faca. - Como você pôde? - Uma, duas, três punhaladas. Tanta, tanta raiva. Ele caiu ali e eu comecei a chorar. Sim, chorava nessa hora. Quando olhei para ela e ainda havia luz em seus olhos, e eles se molhavam e ela gritava um grito inaudito. Eu rastejei até ela. À media que me aproximava, crescia em mim uma vontade de beijá-la. Lembrei do gol do Zico contra a Escócia, aquela bola morrendo lindamente no ângulo do goleiro, do gol do Falcão e então, ali em minha frente não estava mais ela, mas ele, que ainda sorria. Esfaqueei, esfaqueei, até sumir, até sumir tudo. Vermelho, sangue, vermelho, tapete, minhas mãos. Vermelho. Cai na cama, branca, onde eles estavam e chorei. Chorei alto, mas ninguém ouvia. - Forza Italia! Era tudo que se ouvia. Sai do quarto, nem sei se lavei as mãos, nem sei de mais nada. Então estou aqui, então estou aqui. Mas agora o Rossi está morto, a realidade morreu, podemos viver de novo a fantasia! Podemos de novo! - Ele baixou a cabeça e ensaiou uma risada, abafada cortantemente pelo choro convulsivo que se seguiu. Quis ir em sua direção, abraçá-lo talvez, mas sua expressão mudou novamente. Seu rosto vidrou.

-Preciso correr. Preciso ir embora.

Nada pude falar antes que ele se levantasse e saisse correndo pela rua, até que eu não pudesse distinguir sua figura em meio à noite. Apenas ouvi quando um italiano gritou "Forza Italia!" e um aperto tomou meu coração de assalto. Fiquei ali sentado, reouvindo tudo aquilo em minha mente. Tentando entender o que eu mesmo sentia depois daquele encontro inusitado. Tentei mensurar a tristeza daquele homem, em como a minha era apenas parte da dele. Que carregava algo maior. Que no mesmo dia, se vira enganado pela mulher, pelo amigo e pela vida. Sim, e o mais triste era como ele precisou usar a figura do Rossi para poder encobrir tudo. Não falara um instante do amigo, apenas do Rossi. Eu não sabia julgá-lo. E ele seria julgado pelo ato do assasinato, pura e simplesmente. Tudo que sabia era que tinha pena dele. Pena de como ele fugia de si mesmo, de sua culpa, da culpa alheia, de sua dor. A imagem do Paolo Rossi se impregnou em minhas lembranças desse dia e me tornou a noite mais longa. Voltei para meu hotel e tentei dormir, não sem antes rezar para não sonhar com Rossi. No dia seguinte, perdido em meio à centenas de matérias sobre nossa grande dor, uma pequena dor particular que ainda me reservou uma surpresa: uma matéria de poucas linhas dava conta de um homícidio duplo ocorrido num hotel com duas mulheres assasinadas. O assasino ainda não fora encontrado.

Até hoje ainda escuto o choro daquele homem e torço para que eu nunca encontre o Paolo Rossi de minha vida...

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