segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Chão de Giz

A música se arrasta em meio ao mormaço de um calor que não desaparece. Minhas memórias são atiradas a um tempo onde este calor e esta música tinham outro significado. Onde minha vida também tinha outro sentido. Teu rosto escorrega em meio a estas memórias e um peso de melancolia invade meu peito. Não existem muitas palavras que possa usar para substituir estas sensações por uma descrição mais clara que possibilite a outrem experimentar um pouco daquilo que esta música e este calor me trazem de volta.

Acho que isso é um pouco como enxergar fantasmas, uma dor e angústia solitária. Aos outros restará sempre a ignorância e a impressão de que a  loucura te dominou. Não se pode censurá-los por não enxergarem nossos fantasmas e isso só nos aumenta a solidão.
Nunca entenderei como estes sentimentos se transformaram, como a música e o calor abandonaram doces  momentos para irem morar em meio a dor que agora sinto. Mas assim o é. Inegável, tanto quanto a doçura que estas memórias me trazem. Exceto que elas se encontram envenenadas pelo papel que o presente lhes deu.

Muitas vezes imaginei se não teria trocado tudo pela ignorância eterna. Pela minha morte, antes que este conhecimento tivesse sido jogado em meu rosto, me obrigando a rastejar em dias, meses e anos a procura de um sentido para tudo isso. O que me sobrou foram a melancolia, a música e o calor para me trazerem uma dor que tento esquecer e que um dia se chamou amor.

Pois assim é a traição. Imagino que o mesmo teria sentido César se a ele sobrasse tempo para pensar sobre a ação de Brutus. Eu, por outro lado, tive esse tempo e durante anos sonhei com o destino de César. Pois a mim, coube a possibilidade de entender, de refletir e de, enfim, sentir que o maior de todos os traidores era mesmo eu. Que senti algo especial em tudo que se passou, que conferi poderes ao calor e a esta música para que, um  dia num futuro diferente, ela me atirasse a um mundo que não mais existe e que eu, desesperadamente, busco como num sonho.


Por vezes, me pergunto se trocaria toda a realidade por um sonho programado. Como um coma induzido, onde minhas fantasias pudessem serem vividas, ainda que eu soubesse serem fantasias. No fim, acho que não conseguiria, sempre vivi dando à realidade um papel de suma importância em minha vida, embora tenha tentado inutilmente aproximar esta realidade de um sonho. Obviamente era algo fadado ao malogro, inevitavelmente. Como viver em meio ao cinismo sem ser cínico? E como ser cínico sabendo que isso é ruim? Não tenho respostas, nem sei se as perguntas fazem algum sentido. Somente o que me restou foi a melancolia de dias como esse em que o calor e a música engolem minha alma e a atiram de volta a uma tristeza que um dia chamei de alegria.

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