segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

CAMA DE TRÊS

Ainda resfolegando, depois do amor, ele a olhou nos olhos. Em seu rosto se desenhou um sorriso parvo, quase cômico que ela retribuiu com uma expressão terna.



    • Você sabe o quanto você é linda?

    • São seus olhos – ela respondeu, desviando o olhar para as próprias unhas.

Há dois anos se conheciam e a cada vez que faziam amor, era como se ela o brindasse com um presente. Com o tempo, aquela sensação encrustrou-se de tal forma em seu âmago que para ele era imprescindível notar o prazer que ela sentia. Era uma maneira de sentir-se em menor débito com ela. Entretanto, quando achava que não conseguia lhe proporcionar este prazer, se tomava de tristeza. Naquele dia, porém, estava feliz.

Tornou a olhá-la e ela limpava as unhas com um esmero de ourives, de mestre de instrumentos. Até parecia que criava um Stradivarius e não que limpava as unhas. Permaneceram assim por dois minutos, ele a contemplando e ela às unhas. Até que o silêncio se rompeu quando ela lhe disse:



    • Convidei a Fernanda para jantar conosco na quarta-feira. Ela parece muito só desde que terminou com o Melquíades.

Ouviu suas palavras ainda com o mel da alegria nos ouvidos e assentiu com a cabeça sem pensar muito no significado daquele gesto. Continuava a sorrir tolamente, imerso em sua felicidade de bêbado.

Fernanda era uma amiga de trabalho. Na verdade, tornara-se amiga através de Melquíades, parceiro de noitadas que lhe apresentou a namorada. Estavam juntos havia cinco anos e quando as famílias já falavam em casamento, Melquíades pôs um ponto final e foi para Góias com a filha de um fazendeiro. Fernanda, que trabalhava no mesmo escritório dos dois, foi ao inferno. De pessoa extrovertida que era, tornou-se um “corvo”. Ele, preocupado, passou a levá-la sempre aos programas que fazia com Carla. E os três tornaram-se inseparáveis.

Á medida que via a amiga corar-se de vida outra vez, Calazans se encheu de orgulho. Mas Fernanda criara uma dependência pela presença do casal. Estavam juntos tanto tempo que ele se pegava envergonhado ao despir-se no quarto, antes de dormir.

Ainda ouvia dos amigos o chiste cada vez mais comum.



  • Calazans não passa fome! Come sempre dois pratos.

Ficava preocupado que Carla soubesse desses burburinhos e lhe fizesse mal juízo. De fato, era o que se poderia chamar de “um avião”. Tinha um corpo de Helena. Espetacular desde os cabelos até as coxas. Entretanto, nenhum desejo se comparava àquele que tinha pela esposa. Carla era muito mais modesta nos dotes físicos, mas tinha um encanto que o perturbara desde o primeiro instante e seria necessário uma hecatombe para fazê-lo trocá-la por outra qualquer.

    • Calazans...

    • O que, meu amor ?

    • Você acha a Fernanda muito bonita ?

Aquela pergunta gelou seu coração. Será que a esposa soubera a respeito das brincadeiras que os colegas lhe faziam?



    • Por que esta pergunta, coração?

    • Responde. Você acha a Fernanda bonita?

    • Sim, ela é bonita. Mas você é muito mais – disse isso e temeu estar sendo piegas.

    • Você está mentindo, Calazans. A Fernanda é muito mais bonita do que eu. Ela tem um corpo fantástico e eu só tenho essas coxinhas de frango.

    • Ah, não diz isso! Eu adoro essas coxinhas. - E passou a beijar as pernas dela como se isso pudesse torná-las monumentais.

    • Pára com isso! - Empurrou as pernas, repelindo o gesto subalterno do marido. - Sei onde é meu lugar.

Calazans calou-se. Era melhor não dizer nada a arriscar uma discussão.



    • Calazans... - Ela novamente.

    • Sim, minha querida.

    • Você já desejou a Fernanda?

Aquilo atingiu-lhe como uma rajada de balas. Talvez porque fosse uma pergunta que ele mesmo não se ousava fazer.



    • Claro que não! - O ar irrompeu de seus pulmões, dando à frase uma firmeza de convicção absoluta. Aproveitou a deixa e emendou: - Além disso ela é minha amiga e era namorada de meu melhor amigo.

    • Então quer dizer que se não fosse o Melquíades, você a desejaria?

Calazans emburrou-se, encheu as bochechas de ar como uma criança contrariada e virou de lado na cama, não sem antes fazer uma careta para deixar explícita sua indignação. Mas antes que pudesse saborear o gosto do gesto, foi pego de surpresa pela última frase de Carla.



    • Não me importo se você a desejar. Ela é como uma irmã para mim. Minha irmãzinha!

    • Carla, vai dormir, vai. Essa conversa está me deixando neurastênico...

    • Eu não me importaria...

Foram dormir. A semana transcorreu com aquilo. A mulher insistia naquela conversa à noite, quando voltava do trabalho e pela manhã, durante o café. Ele já se cansava e se surpreendeu quando, no jantar da quarta-feira, na companhia de Fernanda, se pegou olhando para as formas curvilíneas da amiga. Ainda pior que, num certo instante, teve quase certeza de que a esposa o flagrara.

Naquela noite teve um sonho tórrido com Fernanda. Ele acordava no meio da noite e quem estava dormindo ao seu lado era ela e não Carla. Usava um baby doll preto minúsculo, destacando suas belas coxas, com os cabelos encaracolados caindo até a base das nádegas. Uma visão celestial! Ou melhor, infernal!

Acordou suando e teve medo, por um momento, que ela realmente estivesse lá. Ao mesmo tempo, uma decepção não confessa por ver as “coxinhas de frango” de Carla. Levantou-se e foi ao banheiro. Só aí notou o efeito físico de seu sonho. Lavou o rosto e encarou o espelho, tendo que admitir, pela primeira vez, desde que casara com Carla, que desejava outra mulher. E o pior: com a anuência da esposa. Estava decidido, no dia seguinte, teria uma conversa com Carla.

No café da manhã, antes que Carla fizesse qualquer menção ao assunto, ele se adiantou:



    • Carla, preciso falar com você.

    • O que foi, Calazans?

    • Meu amor. Tenho que admitir. Desde que você começou com aquela conversa maluca sobre a Fernanda...

    • O que é que tem?

    • Eu comecei a prestar atenção nela. E...

    • O quê?

    • Bem, acho que você tem razão. Eu a desejo. Não sei como estou te dizendo isso, mas é verdade...

    • Eu sabia! Eu sabia! - ela corria pela cozinha, como se estivesse feliz pela conclusão ou vaticínio.

    • Mas eu te amo, Carla! Me perdoa! Eu juro que nunca toquei nela.

Percebendo a aflição do marido, ela o tomou nos braços.

    • Eu sei, meu amor. Eu sei. Sei que amor e desejo são coisas bem diferentes. Não te censuro ou sinto ciúmes.

    • Verdade?

    • Verdade...Só te peço uma coisa.

    • O quê?

    • Eu quero estar presente.

    • Como assim?

    • Quando vocês...Você sabe!

    • Como assim? Eu não pretendo fazer nada com a Fernanda, pelo amor de deus!

    • Mas ela também quer!

    • O quê?!

    • Sim, ela me disse que também quer. Só te peço isso: eu quero estar presente.

Vencido pela surpresa e pelo desejo, ele aquiesceu com um inaudível: “tudo bem”. Carla parecia eufórica, abraçou e lhe disse ao pé do ouvido.

    • Vou convidá-la para vir hoje à noite. Mal posso esperar!

Foi para o trabalho completamente atordoado. Não conseguia se concentrar. Um amigo passou por ele e gracejou: “Esse é o homem que não passa fome!”. Aquilo feriu-lhe de uma maneira diferente. Pela primeira vez parecia que era verdade. Não sabia se era algo bom ou ruim.

Minutos depois o telefone tocou e era Carla.

    • Calazans! Está tudo certo para hoje à noite. Não se atrasa, hein!

Ela estava nitidamente eufórica. “Mas que bolas! Como uma mulher vai ser traída e fica assim?” Aquilo lhe incomodava, mas com o passar do tempo tomou-se de expectativa para a chegada da hora. Não conseguia parar de pensar em Fernanda com o baby doll do sonho. Aquelas formas generosas! “Meu deus! Essa hora que não passa!”.

Terminado o expediente correu para um supermercado e comprou uma garrafa de vinho e velas aromáticas. Tomou o caminho de casa o quanto antes.

Abriu a porta, o coração em sobressalto, e lá estavam as duas no sofá da sala. Seus olhos esqueceram Carla e só conseguiam se concentrar em Fernanda. Ela usava um vestido preto, liso, que escorria despudoradamente por seu corpo, realçando suas formas e as maravilhosas pernas.

Jantaram sem que ele parasse de olhar para o corpo de Fernanda, mas sem conseguir encará-la. Ignorou completamente Carla.

Acabado o jantar, conversaram na sala, sem que nenhuma referência ao objetivo final daquele encontro fosse feito. Passaram algumas horas assim, conversando, rindo e ouvindo música. Por volta das 23 horas, Carla olhou para Calazans como que o intimando. Ele não disse palavra, apenas dirigiu-se ao quarto e esperou por elas, que entraram logo em seguida. Calazans engoliu em seco, enquanto Carla arrastava Fernanda para a cama. Estava surpreso com a desinibição da esposa que beijou Fernanda carinhosamente na boca e baixou a alça do vestido. Esta, por sua vez, parecia completamente à vontade. Seus seios apareceram, lindos, e Calazans ficou eufórico. Correu para a cama e tentou ficar entre as duas, mas foi intempestivamente repelido por Fernanda.



    • Saia daqui!

Aquilo o surpreendeu, mas tentou de novo. Desta vez, entretanto, foi Carla que interviu. Parou de beijar Fernanda e olhou duramente para o marido. Como uma mãe que recrimina o filho, disse:



    • Você ouviu, Calazans! Sai do quarto! Não queremos você aqui.

    • Mas...

    • Mas nada! Sai daqui!

Ele olhou para Carla, olhou para Fernanda, os seios expostos, a curva das ancas se insinuando pelo vestido que lhe caia do corpo. Desesperado, entre a surpresa e o desejo, derramou-se em lágrimas, enquanto as duas continuavam o beijo e o ritual do despir-se mútuo. Calazans foi recuando em direção à porta, sempre olhando-as. Em meio ao turbilhão de pensamento, um lhe sobreveio à cabeça. Uma sensação sorrateira lhe tomou. Era um prazer repentino, pois percebia que Carla estava se entregando aquilo.

Deixou o quarto com um parvo sorriso nos lábios.



Um comentário:

Geórgia Damatis disse...

Muito bom. Espero que continue a escrever. Abs!
Geórgia.